Um jantar do Diabo

Treze diabos, um jantar anual e Lúcifer a fazer das suas. O patife tem um plano.

No tempo em que os animais falavam, treze diabos costumavam juntar-se uma vez por ano para jantar. Um desses jantares viria a ser o princípio de uma nova era.
Não eram uns diabinhos. Não se iluda.
Estas criaturas são responsáveis pelos incómodos, desalentos, tristezas e maçaduras com que somos infligidos amiúde.
São seres que existem para além do conceito de género e, se tal lhes for imposto, terão ao mesmo tempo todos os géneros que houver. O que podem fazer com isso é tudo o que possa imaginar e talvez o que ainda nem sonhou.
Quando vasculhamos o pacote das bolachas e ficamos desconcertados porque já comemos a última sem nos apercebermos, riem-se os diabos menos cruéis.
Também são esses que nos fazem esquecer onde estão as chaves de casa, enchem-nos a cabeça de “brancas” e bloqueiam-nos o pensamento.
Mas os diabos mais abundantes são os que se alimentam dos inocentes, que os corrompem e que convertem os justos à inveja e ao vício.
Deliciam-se com infindáveis patifarias com que nos atormentam e, sem os vermos, vivem ao nosso lado, arrastando os seus corpos lânguidos e gordurosos, coçando as caras cobertas de acne tão generosa que o nariz mal se distingue.
Cada um destes malandros tem a sua especialidade, mas há um de quem ninguém sabe bem ao que se dedica e cujo aspeto em nada se distingue dos demais. Tal como os seus irmãos, é vermelho, tem cornos retorcidos e, acima do rabo, sai-lhe uma cauda que termina em ponta de seta.
Quando os referidos jantares começaram, a memória ainda não tinha nascido, mas desde então estes encontros mantiveram algumas características.
São jantares muito animados, onde cada diabo se gaba incessantemente de todas as patifarias feitas ao longo do ano, e Lúcifer, o cornudo especial, passa a maior parte do tempo calado.
Ao contrário dos demais, emana um odor mais doce que a mais rasca de todas as prostitutas do deserto e o seu tique preferido é tirar sarro do umbigo. 
Lúcifer, de poucas palavras, não perde oportunidade de, traiçoeiramente, concordar com o que algum irmão diz de muito errado. Eleva-lhe o ego para, de seguida, o deixar cair na maior humilhação.
Nestes jantares, há uma particularidade muito curiosa: os diabos elegem um Rei do Jantar de entre os vários comensais.
Apesar de, em cada jantar, haver uma eleição, por artes e engenho que enraivecem todos os restantes, Lúcifer acaba sempre por ganhar.
Lúcifer não se coíbe de usar, perfidamente, os apetrechos correspondentes ao posto para que foi eleito.
Esses acessórios, símbolo de todo o poder, são usados para rebaixar os irmãos ao nível de meros esbirros a qualquer momento:
– a coroa que faz dele quem põe e dispõe, 
– o manto que o protege das escarradelas que lhe mandam pelas costas, 
– o cachimbo com o qual faz fumo para incomodar os seus sabujos, 
– e o tridente com que pica as nádegas de quem lhe apetecer azucrinar.
Naturalmente, como bom diabo que é, Lúcifer usa todas as prerrogativas do seu estatuto, incomodando e humilhando, um a um, os outros diabos.
Todos os diabos querem ser Rei do Jantar e, a cada ano, cresce a raiva coletiva contra Lúcifer, que vai espetando incontáveis vezes os rabos dos convivas.
Ser Rei do Jantar é uma posição muito honrada, mesmo entre seres que à honra nada devem, qualidade pela qual só sentem escárnio.
O jantar sempre obedeceu a poucos rituais, sendo o mais importante o desfile no início do evento, quando cada participante deve fazer uma vénia ao Rei e repetir a fórmula: “Tu és o rei e eu sou um miserável que mal sirvo para teu tapete.”
O outro ritual é lavar a loiça no final do jantar, o que se tem de fazer num alguidar que se encontra a um canto no peganhento chão da cozinha imunda.
Até entre estes seres demoníacos, o comportamento de Lúcifer é desprezível e ele sabe-o.
Sabendo o que se passa na cozinha, Lúcifer vai lá sorrateiramente para azucrinar a cabeça dos irmãos que estejam de volta dos pratos, tarefa da qual o Rei está dispensado.
— Oh criaturas miseráveis, rastejem — e com isto consegue acentuar o azedume global, limitando-se depois a observar com ar de desdém enquanto os outros lavam o prato onde ele comeu alarvemente.
Se há pelo menos uma fantasia coletiva entre os diabos, é que Lúcifer caísse da cadeira em cima da mais fétida bosta de cão.
Como é que Lúcifer faz para ser sempre Rei é um segredo bem guardado. Mas o rancor foi-se apoderando dos diabos a cada novo jantar.
Até que, numa das eleições, após Lúcifer vencer como habitualmente, os restantes diabos, fartos da situação, não aguentaram mais e a coisa azedou.
Decidiram fazer uma nova eleição. Mas desta vez, Lúcifer não participaria e teria de lavar a loiça sozinho.
Vendo nesta rebelião uma oportunidade, um sorriso lento e disfarçado abriu-se na cara de Lúcifer. Ocultando as suas ideias, levantou-se, ajeitou a capa e abrindo os pulmões, vociferou.
— Quer dizer: ganhei, vocês vão fazer nova eleição, eu não participo e ainda tenho de lavar a loiça sozinho? Nem pensem! Podem ter a certeza de que isto não vai correr bem.
Os outros diabos viram a cara de ódio de Lúcifer e perceberam que estavam a uma unha negra de haver porcaria da grossa. Lúcifer não era para brincadeiras.
Ainda assim, tal era o desdém, que todos gritaram em coro.
— Claro! Esta situação não pode continuar!
Lúcifer que, mais vermelho do que era, não podia estar, intensificou de tal forma o olhar que havia quem jurasse ter sentido a terra tremer.
No entanto, ao contrário do que se poderia esperar, acalmou-se, disfarçando um sorriso dengoso.
— Bom. Já tenho os apetrechos de rei e não será fácil tirá-los de mim. Mas, ainda assim, tenho uma proposta para resolvermos este impasse. Tenho noção de que sou só um e vocês são doze — se fosse possível, Lúcifer ganharia um Óscar pela sua performance.
Os restantes diabos, vendo isto como sinal de que Lúcifer tinha percebido que não tinha a vantagem, mostraram-se interessados no que ele tinha a propor.
Afinal de contas, Lúcifer podia ser esperto, mas doze diabos juntos são muito mais. Assim pensaram eles.
 O manhoso fez uma pausa dramática, voltou a ajeitar a capa, inclinou a cabeça com os cornos para a frente e, com o olhar meio escondido pelas sobrancelhas peludas, dirigiu-se ao coletivo.
— Vamos jogar um jogo. Se eu perder, nunca mais serei o Rei do Jantar e lavarei sempre a loiça de cu para o ar.
Isto captou todas as atenções, embora não o suficiente para toldar a razão dos presentes. Qual é a marosca desta vez?
Com um raio! Lúcifer queria jogar um jogo contra doze diabos, todos eles mestres em patifarias?
Por muito esperto que fosse, não tinha a menor hipótese de ganhar. Aqui há gato.
E continuou.
— Qualquer um de vós, habituado como está a pregar partidas, não terá problema em me enfrentar. Todos juntos, então, estou a correr um grande risco.
Sim, isso era certo. Os diabos descontraíram-se, riram-se e gozaram.
— Tu é que quiseste! Vamos lá a isso!
Os diabos sentiam a vantagem e imaginaram a ratoeira onde Lúcifer se tinha metido.
—  Grandes os riscos, grandes as recompensas ou espalhafatosas as derrotas — disse Lúcifer, para gáudio dos irmãos.
— Pouca conversa e vamos ao que interessa — diziam, rindo, os doze diabos.
— Irmãos, irei apresentar-vos um problema. E um só problema. Terão de dar uma solução, e uma só. Qualquer coisa que digam valerá como resposta. Terão de acertar: estou ou não a pensar devolver-vos os apetrechos de rei? Considerando que sou um mentiroso.
Fez-se um silêncio sepulcral e, conforme qualquer um dos doze diabos se preparava para falar, os restantes saltavam-lhe em cima amordaçando-o e dando-lhe socos nas partes mais vulneráveis.
Dessa maneira, todos acabaram por perceber a ratoeira em que caíram.
Lúcifer, depois de se rir abundantemente enquanto se peidava sem piedade, fumou uma valente cachimbada empestando o ar já pouco recomendável.
Nesse momento, algo mudou de forma profunda e duradoura.
Os outros diabos nunca desistiram de ir aos jantares… e ainda continuam, silenciosamente, à procura da resposta para Lúcifer, já que a vingança é um prato que se serve frio.

David Monteiro

Nota: A fotografia mostra a peça de cerâmica Ceia dos Diabos, dos irmãos Mistério, propriedade de Alexandra Simões.

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