Desistir no Caminho
Alma vaga, botas húmidas e a vontade de desistir de tudo. Uma manhã em Ponte de Lima.
Saí do albergue com alma vaga, as botas ainda húmidas do dia anterior e moído das minhas inseguranças. Só me apetecia desistir.
Era cedo e a manhã fresca contrastava com o calor da véspera. A empregada da pastelaria em frente ao albergue montava a esplanada a duzentos à hora para os clientes do pequeno-almoço que não tardariam a chegar.
Endireitei a mochila e notei-lhe o reflexo na montra da pastelaria: sobressaía de um vulto incerto que era eu.
Sentia-a em mim também pelo cheiro, que tinha tanto de familiar como de embaraçoso, e aconcheguei-a às minhas costas cansadas, ajeitando também a camisola que me confortava a zona lombar.
Porém, a minha cabeça desgovernava-se em voos quebrados como as andorinhas dos beirais. Só um pensamento resistia: desisto, não sou capaz.
A mochila queria ir para o chão, mas um leve aroma a carvalho em brasa transportou-me para as doces memórias de fins de tarde à lareira e resisti.
O meu olhar escapou-se para a ponte de pedra milenar, à esquerda, onde o Lima corria suavemente por entre os seus arcos.
Na outra margem, a vila aquecia-se com o sol de outono. Revivi os bons momentos que lá passei, há menos de dezoito horas, vendo o anoitecer coroar o final da longa caminhada desde Tamel.
Agora, hesitante, voltei a contemplar à direita o trilho que me esperava: a caminhada até Rubiães.
Mais um dia de inesperados e dificuldades conhecidas, entre as quais o calor intenso por volta da hora do almoço.
O coração palpitava-me e faltava-me o ar, por pouco que fosse.
Enquanto o passado e o futuro se digladiavam disputando quem me reclamaria para si, eu perdia-me na batalha entre os dois titãs do tempo.
A abarrotar de desculpas mentais, senti-me atraído a largar tudo e voltar para onde tinha sido feliz, mesmo sem me parecer razoável fazê-lo.
Ontem, quando ali estive, preguicei no exterior da Confeitaria Havaneza, no Largo de Camões, e demorei-me a olhar para as luzes da ponte que dá nome à vila, Ponte de Lima.
As esplanadas estavam cheias de gente, tanto locais como turistas que, a julgar pelos seus falares, não pareciam ter vindo de longe.
Foi agradável ouvir umas espanholadas e tantas outras vozes diferentes, tão cansado que estava dos meus pensamentos, pesados companheiros de jornada.
Foi um dia longo.
Aquele momento ajudou-me a reencontrar a leveza que julgava perdida.
— Ora aqui tem o que pediu. Foi um chá, não foi? — a voz do empregado, alegre e atencioso, carregada de sotaque nortenho acordou-me e abriu-me um sorriso.
Com as mãos em concha, agarrei a chávena de chá de limão e soprei, perturbando o vapor ondulante. O meu olhar deslizou entre os muitos arcos da ponte de pedra.
Sem pensar, adicionei açúcar. Um estranho e irresistível pecado para quem não adoça chá nem café.
E mexi. Rodopiei a colher no chá e fiquei a observá-lo enquanto a viscosidade tomava conta do líquido verde-amarelado.
O suave aroma do citrino e o calor reconfortante que acolhi nas mãos elevaram-me acima do meu corpo. Um estado de pré-hipnose em que as batidas do meu coração passaram de aceleradas e distantes a profundas e serenas.
O momento efémero acompanhou o pôr do sol previsível.
Ainda resisti ao frio para poder ver o sol esconder-se ao longe, para onde o rio desliza e a vista se perde.
Restou-me imaginar o Lima a chegar a Viana e a dissolver-se no mar salgado, como o açúcar no meu chá.
O arrastar de cadeiras e mesas da pastelaria trouxe-me de volta e o presente impôs-se. A esplanada estava quase montada.
Senti o peso da mochila.
Regressar à Confeitaria ou enfrentar as dificuldades desse dia? Descalçar as botas ou seguir viagem?
Tal como aquele amigo fiel de quem não gostamos muito, mas que está lá nos momentos difíceis, também a vontade de mandar tudo às urtigas não me largava. Aquele amigo de quem não temos a certeza se queremos por perto, mas temos medo que nos abandone.
Afinal de contas, por que raios queria fazer esta caminhada?
Talvez não fosse apenas da caminhada de que queria desistir.
Tudo me pesava. Talvez tivesse motivos para isso… ou quisesse convencer-me de que os tinha.
Nisto, eficaz como o anzol nas trutas do Lima, fui apanhado pelo irresistível cheiro a café e torradas que vinha da pastelaria.
Na esplanada, um grupo animado tomava o pequeno-almoço.
No dia anterior, sensivelmente a meio caminho entre Tamel e Ponte de Lima, esse grupo caminhava à minha frente. Nessa altura, os sorrisos acolhedores de vários deles convidaram-me a juntar-me a eles.
Faltou-me o ânimo que a eles sobrava.
Agora, renovavam os sorrisos que ensaiei ignorar.
Virei à esquerda e dirigi-me para a ponte. Desistia.
Até aqui tinha seguido as setas amarelas que indicam o Caminho de Santiago de Compostela. Agora seguiria as setas azuis que apontam no sentido contrário: o caminho até Fátima.
Cruzei a ponte em direção à Confeitaria.
O meu lugar estava ocupado. Estavam agora duas senhoras, alheias às mágoas do meu mundo pesado, absorvidas na sua conversa. Da mesa livre que encontrei, tinha quase a mesma vista de antes.
Era um dia diferente e esta paisagem renovada caiu-me tão indigesta como a repisada ideia de, mais uma vez, ter de começar a vida de novo.
Inquietei-me.
Ao ver o empregado sorridente a aproximar-se, desconjuntei-me. Percorrido por um arrepio de vergonha, levantei-me e rumei para o lado de onde há pouco tinha saído.
Não. Não vou desistir e não tentarei compreender-me.
Sorri para a ponte e, ao voltar a pisar as primeiras pedras, retomei os meus pensamentos sobre a idade daquele monumento construído pelos romanos.
É impossível não sorrir ao imaginar homens narigudos, de saia e sandálias, como nos livros do Asterix. Se calhar o Obélix andava a caçar javalis, que ainda abundam nas redondezas.
Perdido nestas fantasias, não antecipei um Buen Camino.
As palavras, que transeuntes me dirigiam desde o início do Caminho, voltaram a assentar-me os pés no chão.
A meio da ponte, encontrei-me com uma grande imagem de Santiago. O padroeiro dos peregrinos, talhado num enorme busto de granito, abençoou-me com o seu olhar e desejou-me Bom Caminho.
No dia anterior não tinha reparado nesta estátua. Podia jurar que não estava ali.
Então, as botas ganharam vida, o peso da mochila parecia ter ficado na outra margem e nasceu-me a esperança de voltar a alcançar o grupo animado.
Afinal, o dia só podia ter começado com o retrocesso. Acelerei o passo.
David Monteiro