Se eu fosse um flamingo
Flamingos na Lagoa, pandemia no mundo. Um observador, dois ritmos. O essencial nunca muda.
Pergunto-me como será ver o mundo pelos olhos de um flamingo.
Porquê um flamingo?
Porque não?
Vejo-os ao longe na Lagoa. Juntos como bolinhas de algodão que flutuam nas águas calmas.
Aproximo-me e já os vejo esguios e elegantes, desfilando em uníssono.
Os seus tornozelos captam a minha atenção. Tomo-os por joelhos. Saliências evidentes nas suas longas pernas delgadas, situadas um pouco acima da superfície.
A pouca profundidade permite que o seu longo pescoço mergulhe até ao fundo lodoso, onde o bico, em forma de concha, seleciona as iguarias para esse dia.
Tento aproximar-me.
O grupo que eu observava vai recuando, afastando-se mais para o centro da Lagoa. Quanto mais me aproximo, mais se distanciam e repetimos tudo de novo.
Poderia ficar ali, imóvel, até que a minha presença começasse a ser mais tolerada e, talvez assim, os conseguisse fotografar de mais perto. Mas não é essa a minha opção.
São muitos. Serão todos do mesmo bando? Talvez não.
Não estranhava se fossem vários grupos menos numerosos e que cada um desses bandos ocupasse uma zona distinta do espelho de água.
Os rosinhas, de pescoço comprido e bico curvo, continuam a sua faina de mariscar o máximo possível. Aproveitam os últimos dias de bom tempo para engordarem e enfrentarem o voo até ao Norte de África, onde passarão o inverno.
Entretanto, no mundo dos humanos, parece que se instalou uma nova loucura. Há restrições de circulação, imposição do uso de máscaras, rumores do que aconteceu ou poderá acontecer.
Felizmente, o mundo é muito mais que tudo isto e, no mundo dos flamingos, o que verdadeiramente importa é prepararem-se para a longa travessia.
Passados alguns dias, fujo da cidade e sento-me no novo porto palafítico. O odor a pinho denuncia a tenra idade da estrutura e encho as narinas desse perfume. Obsoleto como porto mas acabado de construir, abre uma janela para tempos idos, muito antes de toda esta loucura.
O bando está agitado.
Quando antes só comiam, agora repetem-se as picardias e as pequenas quezílias são parte do menu.
Agrupam-se em pequenos bandos e voam sobre a Lagoa.
Alguns levantam voo no Braço da Barrosa e planam para os lados da Aldeia dos Pescadores. Vão engrossar outro bando que por ali se alimentava.
Só os consigo seguir de binóculos.
Talvez ali haja mais alimento, não sei ao certo, mas noto que a chegada dos novos flamingos incomoda os que já lá estavam.
Há reboliços isolados e todos ficam inquietos para pouco depois ser a vez de outro grupo levantar voo em direção ao Braço da Barrosa.
O jogo parece reiniciar-se.
Por momentos, delicio-me deixando a minha imaginação voar até o meu olhar se fundir com uma destas criaturas aladas.
Lá do alto, no seu voo, os flamingos veem as margens da Lagoa delimitadas por arvoredo diverso.
Há muitos eucaliptos e pinheiros, mas também outras árvores que, nesta altura do ano, se despem da folhagem outonal.
Para oeste, em direção ao areal da praia, o mar está endiabrado.
Mais uns dias passam no calendário, sem outras surpresas além da chegada dos dias cada vez mais cinzentos e de sol pálido.
A chuva e o vento deixam de ser exceções e tornam-se norma.
Na praia, a ondulação já não se comporta como uma adolescente irrequieta e o mar assume um temperamento adulto de revolta convicta.
Já necessito de luvas para fotografar.
Se eu fosse um flamingo, não gostaria deste tempo.
Vejo que o bando já voa mais unido, devem ter resolvido as suas pequenas querelas com vista ao objetivo maior. Parece despedirem-se da Lagoa.
Enquanto os flamingos cumprem os seus rituais, no mundo dos humanos, nada parece regressar ao que era antes. Fala-se de um “novo normal”.
Qualquer uma destas razias que o bando vai fazendo à Lagoa pode ser a última desta temporada.
Aproveito para lhes dizer adeus, com a satisfação de assistir a algo verdadeiramente mundano.
Se eu fosse um flamingo, também iria com eles. Não sendo, resta-me ficar a usufruir da doce dor da saudade de os ver na Lagoa.
David Monteiro