Pela janela da cubata​

Wilson quer dançar com os amigos. A janela é pequena. A doença é grande. A avó sabe.

Com as pernas delgadas a tremer, a barriga vazia e sem forças, Wilson levantou-se do colchão de folhas de milho.
Junto à sua cama, uma abertura na parede era o que mais se assemelhava a uma janela, por onde entrava a música que o hipnotizava.
Em cima do banco, onde a avó passou os últimos dias em vigília, Wilson conseguia espreitar a rua, começando a redescobrir um mundo que se misturava com a fantasia das suas longas sestas.
Primeiro, passou os braços delgados e, de imediato, sentiu o calor do sol, que contrastava com a frescura da sombra da sua cubata.
Não foi fácil, mas conseguiu fazer passar a cabeça de cabelos curtos e o tronco franzino, e logo se deslumbrou com todo o cenário.
Uma brisa muito gentil trouxe-lhe odores levemente almiscarados. Seria do embondeiro?
Alguma algazarra ao fundo da rua captou a atenção de Wilson, mas a imensa luminosidade não lhe permitia abrir completamente os olhos e não distinguia os pequenos corpos que se mexiam ao fundo da rua.
Os meus amigos — pensou Wilson numa mistura de agonia e desespero contido.
A ânsia de se juntar ao grupo e a impossibilidade de o fazer criava-lhe uma sensação de urgência que não conseguia resolver.
O que poderia haver de mais importante?
Na sua ausência forçada, mas não distante, aquela música que antes coreografaram, tomou forma e o seu grupo de amigos já dançava.
Na rua, os braços meio desengonçados dos amigos, que se moviam para cima e para baixo, coordenavam-se com as pernas meio dobradas. Esses canivetes, que se abriam e fechavam, arrastavam os pés em voos rasantes e sincronizados com o ritmo frenético da batucada.
Wilson reconheceu o seu lugar na coreografia onde, embora vazio, se movia em sintonia com todos os outros amigos.
Sentiu o coração a bater cada vez mais depressa e, subjugado por uma força maior que ele, preparava-se para saltar lá para fora, quando, de dentro da cubata, sentiu à cintura umas mãos quentes e suaves que o puxaram de volta para a sombra.
— Tem calma, ainda não estás bom. Mais dois dias e estará tudo resolvido — disse a avó.
A pele cor de melaço da avó brilhava nos poucos sítios onde o sol a acariciava e a flacidez da idade contrastava com a magreza das suas mãos e tornozelos.
N’há Titina, como era conhecida, de voz rouca por causa do tabaco, transpirava paciência.
Dois dias? Tanto tempo?  —  pensou Wilson.
Os braços fraquejavam, esticando-se aos poucos, e a janela imóvel parecia cada vez mais alta. Capitulando, deitou a cabeça na almofada que o acolheu com doçura.
Adormeceu rapidamente, a olhar para a avó sentada no seu banco.

David Monteiro

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