Luzes de Natal

Um pai. Um filho. As luzes de Natal na Baixa de Lisboa. Uma tradição que o tempo tornará impossível.

Marcelo, entre palavras que mal se entendiam, insistia há mais de meia hora que a chuva ia parar até que Ernesto decidiu afastar as cortinas e olhar para fora.
A chuva parou de vez e Ernesto olhou para Marcelo, que ansiava por sair.
— Vamos — disse Ernesto, encaminhando-se para o hall de entrada sem realmente esperar por resposta.
Marcelo, cujos gestos há muito eram mais lentos do que o pensamento, limitou-se a sorrir em concordância, enquanto os seus passos leves como pluma o levavam até à porta.
Era o momento de pai e filho, repetindo uma tradição involuntária de irem à Baixa ver as luzes de Natal.
No Rossio, depois de subirem as escadas do Metro, Marcelo deteve-se no último degrau sem perder o brilho no olhar e não resistiu ao cliché.
— Este ano as luzes estão muito bonitas. Parece que há mais enfeites — e subiu o degrau que faltava.
Ernesto, em franca admiração por este espetáculo tão previsível quanto encantador, deixou escapar um doce “sim” acompanhado por um sorriso sereno.
Lembrava-se de o pai ter dito exatamente a mesma frase no ano passado e no anterior a esse.
Havia ou não mais enfeites, as decorações de Natal superavam-se em espetacularidade.
Ao longo do ano, Marcelo e Ernesto sentiam a firmeza da data como uma trave-mestra. Era o penedo de granito que os protegia do vento norte.
Marcelo cumpria a tradição de ir ver as “luzes” desde o início, por volta dos anos cinquenta. Com o nascimento de Ernesto, passou a levar o filho que assim cresceu.
De braço dado com o pai, Ernesto forçou o seu espírito a não impor dúvidas sobre quantas mais “luzes” ainda poderia ver com ele.
Tal como previsíveis são as luzes de Natal, também é certa a inevitabilidade de um dia já não as verem mais.
Pai e filho deram uma volta ao Rossio por entre as barracas de madeira da Feira de Natal.
O algodão doce, com o seu aroma peculiar, dominava o espaço.
— Lembras-te como gostavas de algodão doce? — perguntou Marcelo.
— Pai, isso já foi há várias décadas — respondeu Ernesto.
Mais umas bancas à frente e entraram na zona dos queijos da Serra da Estrela. Marcelo apertou o nariz e olhou para Ernesto, que se riu recordando-se de tempos de infância.
Em frente ao Arco do Bandeira, passaram a estrada que estava impedida ao trânsito.
Marcelo seguiu demoradamente as luzes da Rua Augusta sem que os pensamentos se transformassem em palavras para completar os sorrisos e olhares.
Deu mais uns passos no sentido do Arco, parou durante algum tempo no cruzamento com a Rua de Santa Justa e apontou para o elevador iluminado.
Enquanto isso, balbuciou sons envoltos num gozo pleno e inequívoco. Ernesto não os compreendeu, mas sentiu-os com alegria, olhou para o pai e passou-lhe a mão por cima do ombro.
Podiam usufruir ao máximo do que era, enquanto o era, e não precisavam de muitas palavras para que a conversa fosse completa.

David Monteiro

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