O sarguinho

Uma história de pesca, de pai e filho, e de uma pergunta sem resposta fácil.


Manuel não consegue identificar quem o possa ter influenciado a gostar tanto de pescar. Aliás, lembra-se bem da primeira vez que foi à pesca e com quem, mas não considera esse momento como uma influência, foi antes um abrir de portas para algo que já lhe morava dentro.
Fora isso, não se recorda de sentir qualquer interesse pela pesca, nem em miúdo, nem mais crescido.
Sobre a primeira vez que foi à pesca, é impossível esquecer-se. Foi como um daqueles amores à primeira vista que se julgavam impossíveis antes do primeiro beijo.
Tudo aconteceu no Verão do seu segundo ano de casado, quando ele e a mulher alugaram uma casa perto da praia de Monte Clérigo para passarem uns dias de férias. Nessa altura, nem um anzol sabia empatar.
Mas, inesperadamente, tudo se iria alterar.
Numa jantarada em casa de um vizinho, também veraneante, Manuel foi convidado a se juntar à pescaria do dia seguinte.
Para grande admiração da mulher, Manuel aceitou.
Se foi resultado do calor do momento, coragem líquida de vários copos de sangria ou entusiasmo genuíno, nunca iremos saber.
O certo é, que no dia seguinte lá foi com os novos amigos de verão e cumpriu-se a muito famosa sorte de principiante e trouxe uns quantos sargos para casa.
Foi pela abundância de peixe na Costa Vicentina? Ou teria Manuel já o jeito natural para a coisa?
Fosse qual fosse a razão, aquela manhã Manuel viria a ser lembrada.
Durante essas férias, foi mais algumas vezes à pesca com o vizinho. Mas as férias acabaram e cada um voltou à sua vida.
Tudo isso foi o suficiente para que, assim que chegou a casa, fosse comprar a sua primeira cana de pesca.
Já no recato da sala a admirar o material novo, a sua cabeça foi inundada por fotografias que saíram de caixas mentais do seu passado que há muito não revolvia.
Em criança, Manuel ia à praia com os pais. Viviam no Nadadouro, perto da Lagoa de Óbidos, e costumavam ir à Foz do Arelho, ficando junto às barracas, perto da zona onde estacionavam o carro.
Levavam o almoço, que frequentemente variava entre arroz de atum, rissóis, ou pastéis de bacalhau, mas nunca sandes. Ao fim da tarde, quando o nevoeiro caía sobre a praia, arrumavam tudo e regressavam a casa.
A zona das barracas, virada para a Lagoa, tinha água quentinha, sem ondas e pouco profunda, ideal para famílias com miúdos. Essas famílias já se conheciam de anos anteriores e, crianças e adultos, entretinham-se entre si.
O pai de Manuel gostava de caminhar pela praia, por vezes arrastando o filho consigo, mesmo contra a vontade do rapaz.
Manuel detestava abandonar os amigos e ainda por cima para ir andar! A caminhada era sempre a mesma, pela margem da Lagoa até ao mar, onde se detinham a observar os pescadores com as suas longas canas.
Junto à boca da lagoa, onde se encontra o mar, havia sempre alguém a tentar a sorte. Diziam que ali dava robalos com fartura.
Esses pescadores pareciam misteriosos: enquanto Manuel e o pai iam de calções e t-shirts, eles estavam vestidos de chapéu ou gorro.
As canas pareciam gigantes, o dobro da altura dos pescadores. As linhas, invisíveis à distância, estendiam-se até às ondas.
Manuel tentava ver o brilho das linhas, mas o seu olhar perdia-se no mar.
De vez em quando, os pescadores recolhiam a linha, apenas chumbo, algas e o anzol vazio.
Seguia-se então o que Manuel mais gostava: ver o arremesso.
O pescador colocava o isco, dava dois passos atrás, inclinava o tronco e, com um movimento firme, lançava o anzol com a chumbada, fazendo o carreto zumbir.
Se a distância que a chumbada alcançava não era boa, repetia-se tudo de novo.
Manuel fincava os pés na areia, resistindo à mão do pai que o puxava, só para ver esse momento.
Mas como as memórias são como cerejas e quando puxamos uma, outras tantas aparecem, o pai é presença frequente.
Entre o odor da maresia e o salitre que lhe pica os lábios, juraria que ele ali estava para mais uns arremessos.
Mas, já sem o pai entre nós, basta-lhe umas cervejas, sandes, o telemóvel com auriculares… e lá vai ele de madrugada para um dos seus spots favoritos.
Na altura em que a mulher engravidou, Manuel ouvia os comentários em surdina que diziam que nem pelo filho iria deixar de pescar. Mas enganaram-se.
Sempre tentou equilibrar as coisas e à pergunta maliciosa se não iria pescar, gracejava.
— Nem tanto ao mar, nem tanto à terra — dizia Manuel a rir-se e a apontar o dedo indicador em jeito de pistola.
Ainda assim, não conseguia evitar os amuos frequentes da mulher e sempre com a pesca como pano de fundo. Também nestas alturas não faltavam a Manuel as artes de apaziguamento e, entre umas e outras, lá ia pescando.
Paulinho, o filho, cresceu repetindo a cena de correr animadamente pelo corredor para o pai quando ele voltava da pesca. Quando acordava e não via o pai dizia “Papá peca peca” e à sua volta não havia quem não se risse.
As crianças crescem e complicam-se as agendas. Apesar de Manuel não faltar com atenção ao filho, os fins de semana tornaram-se cheios de compromissos sociais: festas, aniversários, ginástica, teatro…
Foi então que decidiu pescar de madrugada, para ter o resto do dia livre.
Paulinho recebeu a sua primeira cana ‘a sério’ e chegou o dia da primeira pescaria em conjunto.
Manuel sabia que não se podiam demorar. Uns lançamentos, e se apanhassem um peixinho, talvez Paulinho se entusiasmasse.
De madrugada, Paulinho foi ao quarto perguntar se já era hora de ir à pesca. Manuel sorriu, levantou-se e foi preparar o pequeno-almoço.
Estava um dia fresco e com sol.
Chegaram à Praia da Vieira. A maré estava cheia, tudo perfeito para uma pescaria curta.
Manuel levou Paulinho pela mão até à ponta do molhe da praia norte. O miúdo, feliz, abraçou as pernas do pai.
— Pai, estou tão feliz por estar aqui contigo!
Manuel agradeceu a Deus não ser feito de manteiga, senão derretia-se ali mesmo.
Escolheu com cuidado o lugar ideal para Paulinho lançar a cana. E não demorou nada até apanhar o primeiro sarguinho.
— Paulinho, já viste? Belo peixinho para o nosso jantar! Tão bonito…
— Oh pai… o peixinho tem filhinhos? Deixou os filhinhos no mar?
Manuel parou. Tirou o sarguinho do anzol e colocou-o suavemente no balde com água do mar e olhou o filho com orgulho.
Percebeu o dilema.
Acocorou-se junto ao filho e, com muito amor e carinho, respondeu…
 
Agora pergunto-lhe: o que acha que Manuel respondeu ao filho?
 
David Monteiro

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