Luzes de Natal

Entre a chuva que cessa e passos que se encontram, pai e filho partilham uma tradição luminosa na cidade.

Finalmente, a chuva parou e Ernesto olhou para Marcelo, que ansiava por sair.
— Vamos — disse Ernesto, encaminhando-se para o hall de entrada sem realmente esperar por resposta.
Marcelo, cujos gestos há muito eram mais lentos do que o pensamento, limitou-se a sorrir em concordância, enquanto os seus passos leves como pluma o levavam até à porta.
Era o momento de pai e filho, repetindo uma tradição involuntária, de irem à Baixa ver as luzes de Natal.
No Rossio, depois de subir as escadas do Metro, Marcelo deteve-se sem perder o brilho no olhar e não resistiu ao cliché.
— Este ano as luzes estão muito bonitas. Parece que há mais enfeites.
Ernesto, em franca admiração por este espetáculo tão previsível quanto encantador, deixou escapar um doce “sim” acompanhado por um sorriso sereno.
Lembrava-se de o pai ter dito exatamente a mesma frase no ano passado e no anterior a esse.
Na verdade, a cada ano havia mais luzes e enfeites ou, pelo menos, as decorações de Natal superavam-se em espetacularidade.
Ao longo do ano, Marcelo e Ernesto sentiam a firmeza da data como uma trave-mestra. Era a nota de silêncio de uma música bonita e o penedo de granito que os protegia do vento norte.
De braço dado com o pai, Ernesto força o seu espírito a não impor dúvidas sobre quantas mais “luzes” poderá ver com ele.
Tal como previsíveis são as luzes de Natal, também é certa a inevitabilidade de um dia já não as vermos mais.
Marcelo delicia-se com o espetáculo de luzes que se estendem pela Rua Augusta, escondendo o imensamente decorado Arco.
Enquanto isso, balbucia sons envoltos num gozo pleno e inequívoco. Ernesto nem sempre os compreende, mas sente-os com alegria e sorri sempre.
Não precisam de muitas palavras para que a conversa seja completa. Sabem que nem sempre será assim, mas podem usufruir ao máximo do que é, enquanto o é.


Feliz Natal.

David Monteiro

Scroll to Top