Fernando, Deus e as sardinhas

Em Alfama, entre sardinhas e fados, um homem angustiado enfrenta o silêncio de Deus num debate inesperado antes de um encontro que mudará tudo.

No peito, aquela angústia que preferia adiar, nos olhos as lágrimas insistiam em dar sinal de si, mas o sorriso não o abandonou e insistiu em prevalecer. Fernando preparava-se psicologicamente para se encontrar com António.
Foram incontáveis as vezes que no passado António foi em seu auxílio, parecendo adivinhar as suas angústias. Quando lhe pareceu não haver caminho, António iluminou os trilhos a percorrer.
Depois de algum tempo sem contacto próximo, chegaram-lhe notícias perturbadoras pela comunicação social. O indigno terá caído em cima de António e, se o conhece bem, não se deve ter defendido.
Em cima do acontecimento não era o momento de lhe ligar, teve de dar um tempo, pouco, para poder tomar esta iniciativa. Mas, nem por isso foi fácil.
Perante as dificuldades, Fernando confiou que o Senhor o ajudaria a encontrar o como e o quando ajudar António.
Ainda em casa, há mais de meia hora que saltitava entre o arrumar apressadamente as coisas para sair e encontrar sempre algo mais que o atrasava. Inseguranças.
Mas, finalmente, saiu.
Foi folgado de tempo contando que um momento de recato antes do jantar lhe ajudaria a preparar-se para o encontro.
Por coincidência, se é que tal coisa existe, estava na altura dos Santos que Fernando adorava.
Nessa tarde, de uns dias antes da véspera de Santo António, era a altura ideal para ir a Alfama comer as sardinhas pelas quais ansiava o resto do ano. Ainda se podia andar por aí.
Além do mais, o ambiente que se vivia com os balões e fitas de papel colorido, os arraiais nas estreitas ruas de Alfama e as marchas que se ouviam constantemente, criavam um ambiente que só encontrava paralelo nos filmes portugueses dos anos quarenta. Era delicioso.
E, com todas as suas atividades sociais, se Fernando queria viver um pouco da animação dos “Santos”, tinha que ser nesta altura porque na véspera de Santo António, tinha sempre afazeres derivados da sua vocação que limitavam, ou mesmo anulavam, o seu tempo disponível.
A hora de maior calor em Lisboa já tinha passado, apesar de se sentir que já nos íamos aproximando do Verão.
De calções caqui que lhe davam ligeiramente acima dos seus joelhos gordos, sandálias de couro e camisa folgada de manga curta por fora dos calções, sentiu-se bem e descontraído.
Vestir calções era uma raridade para Fernando, mas o calor dos últimos dias, algum peso extra que tinha ganho nos últimos meses e alguma necessidade de maior liberdade empurraram-no a experimentar algo já quase esquecido.
Sem pressa, desceu as Escadinhas Norberto Araújo sorrindo à senhora que num banquinho forrado com uma toalha branca com galos de Barcelos estampados, vendia copinhos de ginjinha cuidadosamente dispostos numa bandeja de inox.
Depois de passar por um altar de Santo António, de onde sobressaía um conjunto de velinhas do IKEA, meteu-se pelo Beco da Corvinha, descendo até às Escadinhas de São Miguel.
A tarde ia avançando, e por todo o lado havia gente a descer e a subir as ruelas do bairro.
Dos dois lados das escadinhas, os moradores da zona construíram estrados de madeira como base das suas bancas onde colocaram mesas cobertas com linóleo e bancos corridos de madeira.
Cada banca, com a fachada decorada a rigor, ficava virada para as escadinhas por onde passavam os foliões.
O grelhador de cada banca era exibido orgulhosamente.
Nunca ocupando posições secundárias, esperava o seu momento de brilhar, assando as tão procuradas sardinhas, as rainhas dos Santos.
Todos os anos, estas bancas começam a ser montadas durante o mês de maio.
Cada família, ou grupo de amigos, dessas escadinhas e ruelas dos bairros, tem a sua banca que decora a rigor.
No Largo de São Miguel, tal como noutros largos estrategicamente escolhidos, são montados palcos onde atuam bandas que animam a multidão com êxitos populares.
Os barulhos da montagem do palco e ligação da aparelhagem sonora do Largo de São Miguel misturava-se com os testes dos cantores.
Qualquer amante dos Santos Populares sabe que o arraial só está completo com a banda a cantar “O Pai da Criança” e outros êxitos populares. São músicas que no dia-a-dia a maior parte das pessoas nega saber, mas quando são cantadas, e de preferência já com um grão na asa, todos as sabem cantar.
Os “As” e “Bs” dos testes sonoros fazem crescer na multidão a expectativa de início da banda e aumentando também a ânsia do início do bailarico.
Fernando adorava uma bela sardinhada neste ambiente, esperava um ano inteiro por este pequeno prazer de que usufruía desde criança. Pensar que podia partilhar este momento com António provocava-lhe um sorriso involuntário que contrastava com uma leve azia que o fazia engolir em seco.
Tinha nascido não muito longe dali, na zona da Graça, mais para os lados da Feira da Ladra, ao Campo de Santa Clara, onde era muito conhecido pelos moradores mais velhos.
Em Alfama, apesar de para ele ser como a sua segunda casa, ninguém o conhecia, o que acabava por ser uma vantagem se queria espairecer um pouco e comer as suas sardinhas em paz.
No ar sentia-se algum cheiro dos diversos fogareiros e grelhadores, espalhados pelo bairro, que iam libertando o fumo do carvão ardente.
O Postigo de Santo António, Alfama é Linda, são nomes de bancas a que Fernando sorria ao ler, lembrando-lhe os ditos antigos filmes portugueses.
Enquanto Fernando descia as escadinhas de São Miguel, foi observando a cena típica daquele momento. Absorvia toda a boa energia que podia, preparando-se para a conversa que teria com o seu amigo António, uma conversa desejada, mas nem por isso fácil.
Já passavam das seis da tarde e, nas Escadinhas de São Miguel, em frente de cada grelhador, havia alguém que se encarregava de pôr as brasas no ponto certo para dentro de nada poderem receber o que se quisesse grelhar.
Por esta altura, com o carvão dos grelhadores a aquecer, ainda se mantinha no ar o cheiro do petróleo usado para atear o lume.
Um ferro comprido para picar o carvão, um instrumento que parece uma pá pequena, mas comprida para manusear as brasas e um abanico óbvio, eram as ferramentas que se repetiam em cada grelhador, para além de uma garrafa de litro e meio de água a fazer de borrifador para acalmar as labaredas que insistiam em levantar a garimpa.
Fernando foi descendo e, quase no Largo de São Miguel, sem se questionar porquê, olhou para uma das bancas e, também sem pensar muito no caso, pareceu-lhe que essa era a banca ideal onde sentar-se à espera do seu amigo António.
Quem estava nessa banca eram locais.
Nas escadinhas continuavam a passar algumas pessoas, notoriamente turistas com aquele ar descontraído e carregados de pontos de interrogação no olhar, perante todo aquele aparato bizarro que se montava e não sabiam bem do que se tratava.
Fernando olhou para dentro da banca, e como num jogo de ping-pong entre chineses, assim estava a conversa entre os elementos dentro da banca.
— Ó amigo, vai uma cervejinha? É que se quer alguma coisa do grelhador ainda vai ter que esperar um bocado que estou ainda a atiçar o carvão — disse Pedro, o mestre grelhador dessa banca.
Fernando, com um sorriso perante a simpatia do homem, respondeu que um copo de vinho tinto lhe daria muita satisfação. Enquanto procurava um lugar que não fosse demasiado estrito, dirigiu-se ao seu homem do grelhador.
— Estou à espera de um amigo que virá um pouco mais tarde, lá mais para a hora do jantar.
Sem se virar e continuando a picar o carvão, Pedro disse, sobrepondo a sua voz ao som da televisão, que isso da hora do jantar era muito vago porque os camones não tardavam a começar a querer jantar e os tugas só lá para as oito é que começavam a sentar-se para sardinhas.
— Sente-se que já tratamos de si — resolveu Pedro.
Pedro, de ombros de armário e mãos grossas, era um homem maciço. Serralheiro de profissão, tinha construído o seu grelhador com base numa metade de bidão metálico que comprou no ferro velho de Camarate.
Nascido e criado em Alfama, tinha assistido, com desagrado, à transformação do bairro num grande aglomerado de casas para turistas.
A casa que está atrás da banca é sua, não deve nada ao banco, foi-lhe deixada pelos pais. Apesar de já lhe terem oferecido uma pipa de massa pela casa, só sairá numa caixa de madeira com os pés para a frente.
Em criança, ajudava o pai que Deus tem, a grelhar as sardinhas em alturas dos “Santos”, agora era a sua vez de as grelhar e, enquanto puder, assim continuará.
De camisola de alças e calções azul petróleo, comprados nos saldos do Continente, enfrenta o grelhador com a mestria que só a longa prática pode dar. Quem ali estivesse algum tempo, seguramente que ouviria a dizer: quem achar que assar sardinhas é fácil então que as venha assar e depois mande bocas.
Em cada banca, o respetivo grelhador ia-se aprontando e os vários mestres grelhadores iam trocando graçolas entre si. Notava-se que a sua relação era de longa data, talvez se conhecessem de terem crescido juntos ali mesmo à volta da igreja.
Durante mais de meia hora digladiaram argumentos futebolísticos em que o FCP era o mais castigado nos comentários gerais e tendo, notoriamente, menos adeptos entre os presentes.
Apesar de já estarmos em junho, ainda custava a engolir o facto do Benfica ter perdido em casa contra o Porto em meados de fevereiro.
Ao fundo da banca, um ferrenho benfiquista ia mandando umas bocas secas conforme a conversa se desenrolava.
Entre as suas palavras notava-se um azedume pelo facto de Jorge Jesus, fazer agora um ano de ter deixado o Benfica e ido treinar o Sporting. Raios partam o homem. O Sporting? Era lá coisa que se fizesse?
Fernando, divertido com a conversa, ou talvez mais divertido ainda com a interação dos participantes, limitava-se a ir limpando o suor que corria da testa, a ouvir e a sorrir.
A televisão ia marcando o passo das conversas quando, Maria, mulher de Pedro, baixinha e troncuda, abundante de peito e pernas, trajando umas calças de algodão justinhas que faziam relevo à sua roliça forma de ser e andar, saiu de dentro da casa a resmungar com o raio da bola … é todo o dia …, agarrou no comando, mudou de canal e voltou a entrar em casa continuando a falar sem se entender nada do que dizia.
Na televisão passavam as notícias que falavam de um caso que teria acontecido há cerca de um ano. Via-se na televisão o que parecia um corpo inanimado deitado numa praia à beira de água.
Ninguém teve qualquer reação até que, claramente, todos entenderam que se tratava do corpo de uma criança quando o jornalista referiu que o menino sírio de três anos, parte de um grupo de refugiados, fora vítima de naufrágio e deu à costa numa praia turca.
Do fundo da banca ouviu-se um foda-se seco e magoado.
Fernando viu a imagem atónito, sem reação. Não sendo nova, era uma imagem sem prazo de validade.
Este tipo de sensibilidade acentuada é muito comum em quem tem filhos, mas Fernando, mesmo não os tendo, partilhava dessa sensação e com bons motivos.
Talvez porque os seus fins-de-semana eram repletos de sons alegres de crianças barulhentas ou talvez também pelo muito trabalho de apoio social com crianças de bairros carenciados ao longo dos anos, o tenha aproximado às crianças.
— Não entendo … não posso entender … — balbuciava Pedro, enquanto gesticulava o picador no ar.
— Metem-se nuns barquinhos que mal servem para andar pela costa e querem atravessar algum mar mais a sério.
Sem muito pensar, mas com candura, Fernando referiu que seguramente fugiam de vidas horríveis.
Longe dele dizer que seria certo ou errado sobre um adulto arrastar uma família para algo tão arriscado, mas havia que entender as escolhas e as motivações que em desespero conduzem a comportamentos extremos.
— Mal sabem as nossas crianças a sorte que têm ao estar num país como este. É certo que temos os nossos problemas, mas nada que se compare … meu Deus … que desgraça — disse Fernando profundamente consternado.
O velho ranzinza lá do fundo, Manuel, mas a quem todos chamavam de Manel, bateu com a sua mini com força na mesa, com tanta força que o linóleo não abafou o som e instintivamente Pedro virou a cabeça em direção do ruído.
— Deus? Que Deus? Isso é tudo fantochada, Deus não existe — exclamou o velho.
O assunto atenuou o sorriso de Fernando e a sua expressão ganhou um ar interrogativo.
Quem não havia ouvido isso antes? Não era novidade para ninguém, mas a intensidade como tinha sido dito não deixava dúvida que muito haveria sido deixado por dizer.
Manel era homem de poucas falas e menos amigos. Não porque fosse pessoa desagradável, mas porque só procurava os amigos de longa data e pouco, ou nada, deixava espaço para novos.
De testa franzida e músculos definidos pelas cargas e descargas com que trabalhava diariamente, tinha um ar saudável acentuado pela sua pele morena do sol. Ainda assim, o cansaço morava ali.
Agora, relativamente perto da idade da reforma, de entre os poucos grandes amigos que tinha, há pouco tempo viu partir o pai de Pedro, o seu grande companheiro de infância.
Pedro e Manel, conheciam as posições de ambos sobre quase todos os assuntos e este não era original. Só Fernando parecia ver algo novo neste caso.
Em geral, discussões sobre a existência de Deus devem ser tão frequentes que não deve haver quem não as tenha tido.
Na sua conciliadora forma de ser, Fernando referiu que não raras vezes temos dificuldade em compreender os caminhos de Deus, mas tal não significa que não exista.
Enquanto Fernando falava, o velho expressou um esgar abanando a cabeça endireitando-se um pouco e, sem deixar Fernando acabar, cortou a conversa com uma estocada.
— Tem piada, se uma criança vê monstros no quarto quando a luz do quarto se apaga, dizemos-lhe que apesar de ela os ver, os monstros não existem. No entanto, quando algo mau acontece, não vemos Deus, mas dizemos que ele existe e somos nós que não O compreendemos. Não será que nas duas situações há, simplesmente, explicações deste mundo e não do outro?
Esta contra-argumentação apanhou Fernando agradavelmente desprevenido, apesar de serem interrogações que não lhe eram estranhas.
— Deus não existe … uma fantochada — insistiu Manel.
Pedro, num rápido encolher de ombros, mostrou a falta de novidade do assunto que não podia ficar sem resposta.
Não que tivesse a solução para o problema. Ainda assim, olhou para o amigo lembrando-lhe que em criança ele e os seus amigos de criação frequentaram a catequese na igreja onde Manel tinha sido batizado.
Hoje em dia, a maioria dos amigos dispersaram-se pelos caminhos da vida. Poucos são os que ainda moram ali e menos ainda os que vão à missa.
O velho, após meter mais dois tremoços na boca, e continuando com o seu ar de palavras secas, diz que o mundo é igual para esses seus amigos que ainda acreditam como para si que não acredita. Acreditar ou não, não faz qualquer diferença. Existir Deus ou não é irrelevante.
Fernando não resistiu a dizer que Deus existe para todos, quer acreditem ou não.
— Mantenho a minha pergunta: então qual a diferença? — esganiçou Manel enquanto dava uma palmada na mesa que fez saltar o pratinho de tremoços e cascas.
Fernando, hesitante se haveria de acalmar Manel, foi interrompido por Pedro que demonstrou que essa não era a primeira vez que o amigo se exaltava.
Puxou os calções para cima e, com voz calma e profunda, lembrou a Manel que não temos de olhar para Deus como uma entidade que permite, ou não, que as coisas aconteçam.
— Porque não olhas para a vida de Cristo como exemplo? Se fosses à missa já terias ouvido isto.
Mas, sólido na sua posição, Manel nem pestanejou a responder que Cristo não era grande exemplo. Bastava verem que não lhe correu bem a vida e que Deus, se existe, nem ao seu filho ajudou.
— E, afinal de contas, para que morreu Cristo na cruz? Para hoje em dia podermos assistir às atrocidades que presenciamos? — enquanto falava, Manel ia fechando os olhos e desviando a cara para voltar a olhar de frente no final de cada frase e continuava.
— Se Deus existe, e todo misericordioso como dizem e como o poder que tem, como é que deixa que tanto mal exista na Terra?
Fernando ouvia as palavras de Manel que se encaixavam em compartimentos pré-determinados de aulas que um dia assistiu e tinha ideias próprias sobre o assunto. Porém, estava indeciso sobre a melhor forma de as partilhar naquele momento, ou se o deveria fazer.
A sua normal agilidade de raciocínio, parecia tropeçar em pedras mentais e, à indecisão, juntava-se uma estranha relutância de falar sobre o assunto nesse momento.
Olhou em seu redor e mais uma vez cedeu ao seu lado de partilha.
Começou por dizer que nem tudo o que acontece é obra divina. Explicou que Deus deu livre-arbítrio ao Homem para que este fosse livre nas suas escolhas e consequente nas suas ações.
Pedro parou de espicaçar o carvão, olhou para Fernando e disse-lhe que essa do livre-arbítrio que se conta de Deus, não pode ser bem assim.
Fernando não esperava essa interrogação de Pedro e não podia ter ficado mais intrigado, sorriu e Pedro continuou.
— Então se Deus sabe tudo, pode tudo e conhece o presente e o futuro, não há ação do homem que Ele não saiba que vai acontecer, então o livre arbítrio é muito questionável.
Fernando identificou a ratoeira em que se tinha metido, mas continuava indeciso se haveria de aprofundar esta conversa.
Pedro sentiu a necessidade de dizer que o facto de ter fé, não queria dizer que não tivesse as suas dúvidas e que acreditar em Deus era uma opção.
Manuel suspirou, ajeitou-se na cadeira e descontraiu-se o quanto sabia.
Uma vida com mágoas incuráveis fazia-se notar na atitude de Manel que visivelmente travava muitas palavras antes de verem a luz do dia.
Entretanto, o exterior, alheio a todas estas dores, começa a ganhar alguma vida. Nas escadinhas adensavam-se os turistas que ali paravam para fotografar Pedro que espicaçava as brasas.
Também crescia a percentagem de grupos de portugueses ruidosos que ali se iam juntando aos comparsas.
Os pedidos de jantar continuavam a ser recusados, mas já com a advertência de que em breve as brasas estariam no ponto.
Manel levantou-se e entrou na casa dizendo alto a Maria que ia à casa de banho.
Pedro, vendo o amigo a afastar-se, aproveitou o momento para se dirigir a Fernando em jeito de confidência.
— Manel é um grande amigo da família. Ele lembra-me constantemente que ando comigo ao colo.
Fernando sorriu, mas viu que imediatamente a expressão de Pedro ficou mais grave, como que atraiçoado pelos seus pensamentos.
—  Sou um ano mais novo do que seria o Zé, o filho de Manel que morreu com 16 anos, há quase trinta anos.
—  Muito novo, o que se passou? — perguntou Fernando.
Pedro contou que aos 16 anos, após uma fase em que Zé andou muito pálido, perdeu o apetite e começou a ter nódoas negras sem se entender porquê.
— Sabe, as coisas eram diferentes nessa altura. Talvez devessem ter ido ao médico logo que começaram a ver que alguma coisa não estava bem. Mas sabemos lá se isso teria feito alguma diferença. Ninguém sabe — o corpanzil de Pedro vergava-se às palavras mas não as travavam.
— Quando foi ao médico, depois de uns testes, souberam que tinha leucemia e, talvez, em seis meses, se tanto, apagou-se. Entretanto, ainda esteve uns três meses internado no Hospital da Estefânia. Quando o Zé morreu, nem parecia o mesmo de tão branco e magro que estava.
Pedro lembrava-se muito bem do Zé. Contou a Fernando que eram amigos desde o jardim de infância, onde ficavam quando os pais iam trabalhar.
— Como pode imaginar, o Manel e a mulher ficaram de rastos — disse Pedro ainda com um ar grave, hirto e sem parecer que fosse terminar de falar.
— Deixaram de ver os amigos, parecia que viviam só um para o outro até que já não podiam um com outro e o Manel voltou a aparecer mais por aí — já com os ombros descaídos, Pedro volta a concentrar-se nas brasas e à sua forma indolente de ser.
Ainda contou que Zé andava um ano à frente dele na escola, mas encontravam-se nos corredores e pátios. No bairro andavam muito juntos.
Nesse momento, foram interrompidos.
— Boa tarrrde — disse alguém com um forte sotaque americano, era Nancy.
Enfermeira reformada, há cerca de um ano tinha escolhido Portugal para passar um tempo da sua reforma.
Maria, apesar de lhe ter aplicado um daqueles interrogatórios à portuguesa, não conseguiu saber as razões desta escolha de local para viver, nem saber com quem Nancy vivia.
Dir-se-ia que ainda não tinha conseguido saber, porque se há coisa que Maria não sabe é desistir de saber da vida alheia.
Sem abandonar o grelhador, Pedro fez-lhe um gesto convidando-a a juntar-se ao grupo.
Nancy, alta, com pernas e braços fortes, de imediato levantou uma mão em thumbs up, tirou os óculos escuros e apressou-se a escolher um dos bancos corridos onde se encaixou com dificuldade.
Nesse mesmo instante, Manel reapareceu vindo de dentro da casa.
— Olha o que trouxe a maré — disse o velho esboçando o que parecia ser o primeiro sorriso do dia.
Nancy disse de imediato que o mar não tinha trazido nada.
Fernando escancarou os olhos o que levou o mestre grelhador a explicar que Nancy estava a tentar aprender português e as confusões que fazia eram mais do que muitas.
Mais ágil do que a sua compleição aparentava, Fernando já se tinha levantado, sorriu e estendeu a mão a Nancy, apresentando-se e dizendo que também tinha acabado de chegar.
Pedro não perdeu a oportunidade de envolver Nancy na conversa que Fernando pensava já terem abandonado e que não fazia questão de retomar.
Nancy, para além da sua vida profissional enquanto enfermeira, ao longo da sua vida tinha feito muitas ações de voluntariado em África onde contactou com muitas realidades diferentes.
Apesar do seu sorriso constante, conseguia-se perceber no olhar e forma de falar que Nancy seria uma pessoa firme e decidida. Porém, deixava no ar a dúvida se essa firmeza lhe era inata ou ganha na sua intensa experiência profissional.   
— Nancy, estávamos aqui a falar sobre Deus. Se existe ou não existe. O que acha?
Nancy arregalou os olhos.
— Oooh … isso preciso vino como Sr. Fernando … não pode falar assim sem beber nada — contrapôs Nancy no seu português incipiente que despertou sorrisos na audiência.
Sem hesitar, Maria que já ali estava à espera da sua oportunidade para falar com Nancy, agarrou um copo de plástico e encheu-o na box de vinho tinto D. Ermelinda Freitas.
Em continuação, como se de um só gesto se tratasse, abriu a arca frigorífica que se via estar repleta de bebidas de Minis Sagres, agarrou uma e estendeu-a Manel que a agarrou.
Mestre nesta conversa surda, olhou para Fernando que de imediato entendeu e respondeu.
— Obrigado, mas não quero mais nada por agora.
Nancy lançou uma saúde e todos acompanharam.
Com um profundo e sonoro Well, Nancy começou a responder a Pedro sobre essa pergunta milenar.
Disse que, acima de tudo, não sabia.
Explicou que às vezes parecia que indiscutivelmente só poderia existir algum ser superior que olha por nós e que é o responsável por atos que só os podemos apelidar de milagres.
Mencionou que não são raras as situações, para as quais não há explicação científica. Situações de recuperação de doentes que haviam sido dados como perdidos, por exemplo.
Milagre ou falta de conhecimento que um dia será colmatado?
Não sabia mas não descartava todas as hipóteses.
Quanto mais falava mais lhe faltavam as palavras portuguesas e acumulavam-se os pontapés na gramática. Percebia-se o esforço que era partilhado pelos presentes a tentarem entender o que era dito.
Uma pausa, foi o suficiente para Fernando sentir que dali viria algo mais.
Pausadamente, e com mais palavras em inglês, confessou que há situações que fica a pensar onde estava Deus nesse momento. Foi o caso dos resultados do furacão Katrina, em 2005, que matou muita gente nos Estados Unidos, um horror.
— Que Deus, que nada … — arremessou Manel cortando a conversa.
Pedro, aproveitou a dica de Manel e deixou claro que, se há situações para as quais tem dificuldade em aceitar o assunto do livre-arbítrio, mas com dificuldade ainda pode compreender ou aceitar, há outras situações em que de todo não aceita e não quem lhe faça entender.
— A que se refere? — perguntou Fernando.
— O caso que disse Nancy é um deles. Porque razão Deus permite atos da natureza que resultam em tantas perdas de vidas humanas entre as quais tenho a certeza que muita gente nada de  mal teria feito ao mundo.
­­— Veja-se a situação do tsunami na Indonésia, em 2004, centenas de milhar de mortos. Que Deus é este? — continuou Pedro num misto de afirmação e pergunta.
Fernando ia tentar intervir quando Nancy recordou a indiscutível ajuda que é prestada por muitos missionários e voluntários em África que têm por base organizações da Igreja. Muito perentoriamente disse que não podemos esquecer esse trabalho.
Um sorriso de cumplicidade não contida iluminou a cara de Fernando.
Manel, que só havia suavizado a sua secura para um breve sorriso a Nancy, levantou-se e também em tom mais alto, exclamou.
— AAhhhhhhh … mas isso é outra coisa … isso não tem nada a ver com Deus … as pessoas quando querem são mais do que esse Deus … isso de ir à missa e bater no peito não serve para nada, mas ações concretas é outra coisa.
Entre as várias coisas que Pedro tinha dito a Fernando sobre o caso do filho de Manel, contou-lhe que durante todo o tempo que o rapaz havia ficado internado, Manel desfez-se em elogios às equipas de médicos e enfermeiros que trataram do seu Zé. Ainda o diz de vez em quando.
— Pessoas de verdade, é o que vos digo. Pessoas de verdade é o que faz falta e faz a diferença — Manel parecia falar para o ar.
No grelhador de uma banca ali ao lado, o sal aspergido para cima das sardinhas já crepitava nas brasas e, por entre golfadas de fumo, podiam-se ver as sardinhas, ainda miudinhas, mas já entre o azulado e o acinzentado de bem grelhadas.
Se o fumo fosse elegante, diria que bailava de cima para baixo bafejando a multidão. Porém, fumo de grelhadores é coisa do povo e, se há algo que o que o fumo de uma sardinhada faz com mestria é empestar democraticamente todos quantos dele passam perto.
Entretanto, ouviu-se música no Largo de São Miguel, era o início do baile.
Nas escadinhas, o rebuliço beirava o incontrolável, as várias bancas começavam a receber os primeiros clientes e Pedro lançou um orgulhoso tá quase a olhar para o carvão já bem quente.
Na pausa da conversa, Maria viu a sua oportunidade e lançou-se na sua cruzada.
— Então Nancy? Está mais contente com o seu prédio? Da última vez que aqui esteve não me pareceu lá muito contente com uns vizinhos.
Seria desta que conseguiria saber com quem vive Nancy? Só a tinha visto uma vez com uma amiga e a sua forma prática de ser e vestir davam-lhe sinais intrigantes que lhe picavam a curiosidade.
Mas Nancy só teve tempo de olhar para Maria e, talvez ainda estivesse a traduzir as palavras portuguesas, quando Manel, com ar muito afetado, se dirigiu a Nancy.
— Se Deus existe, muito mal vai a sua igreja com aquelas situações dos padres americanos e as crianças.
Shame … shame on them — entre o desconforto e a surpresa, Nancy repetia em inglês porque o pouco português que sabia não lhe parecia expressar bem o que sentia.
Entretanto, Pedro mandou entrar um grupo de jovens, já meio alegres, que perguntavam se se podiam sentar. Maria logo se apressou a pôr os talheres em que cada conjunto fora previamente enrolado num guardanapo de papel.
As brasas estavam no ponto e era hora de Pedro começar a assar as famosas sardinhas.
O largo estava quase à pinha e a banda cantava animadamente.
Mais em baixo, na Rua da Alfândega, chegava António que tinha ido de táxi até ao Museu do Fado.
Já lhe tinham falado várias vezes da Uber, e de todas as suas vantagens, mas tantos anos a levantar a mão e mandar parar um carro de praça, talvez se viesse habituar a algo diferente, mas ainda não tinha sido desta.
O taxista era-lhe conhecido e a conversa até ao destino fora animada sem qualquer referência desagradável a situações do seu passado recente.
Do Chafariz de Dentro ao Largo de São Miguel foi uma caminhada curta apesar de ser a subir e António ter de ir furando caminho por entre a massa de gente que vinha aos Santos.
Passado o Largo de São Miguel, e assim que começou a subir as escadinhas com a leveza que a sua estatura física permitia, encontrou sem esforço o seu amigo Fernando.
Ao trocarem olhares, os sorrisos foram imediatos.
— Olá, Fernando, que gosto ver-te depois de tanto tempo, estás ótimo rapaz. Fiquei aos saltinhos com o teu convite.
Os novos amigos de Fernando perceberam que havia chegado o amigo esperado.
— Padre António, não podia estar mais contente de o ter aqui comigo, nem sabe há quanto tempo me tenho torturado, mas ao mesmo tempo anseio por este encontro. Calculei que queria um tempo de recato após aquela situação tão desagradável — referiu Fernando, de forma cândida e pausada.
Para António, não foi nenhuma surpresa a razão do encontro e, também por isso queria muito vir aqui. Não é novidade que quando nos magoam também sofrem os que nos amam.
António conhecia bem o bom coração deste seu antigo aluno e estava seguro da sua amizade.
Do seu tempo de professor no Seminário de Almada, guarda grande proximidade com a maioria dos seus alunos. Os rapazes até fizeram um grupo no Facebook com o seu nome.
António nunca tinha conhecido outra vocação em toda a sua vida para além do sacerdócio.
Foi sempre um grande dinamizador das paróquias por onde passou, quer nas aldeias de interior após ter sido ordenado quer nas várias paróquias em Lisboa onde esteve a maior parte da sua vida.
Agora com sessenta e sete anos, mantinha um sorriso franco e constante que sublinhava uma misteriosa tristeza no olhar que acentuava a sua magreza.
Passou por um tempo de vida que jamais teria imaginado possível para si. Foi injustamente acusado de pedofilia.
Alegadamente, esses atos teriam sido praticados durante o seu tempo de prior numa paróquia nos arredores de Lisboa, acusações das quais acabou por ser ilibado.
Atualmente, António dedica-se a dar apoio aos padres que foram ou podiam ter sido seus alunos.
Diz ele que, através daqueles com quem, das mais diversas formas, privou e que viverão para além dele, poderá servir a Deus por muito mais tempo.
— Deixa Fernando, não te apoquentes, Deus sabe a verdade, vocês sabem a verdade, eu sei a verdade e todas estas verdades são uma só. A vontade do Senhor é um mistério constante que não nos cessa de espantar. Tudo se encaminhará, vais ver — António, que através de algumas palavras trémulas e um ligeiro nervoso miudinho, sentia a tensão que Fernando carregava, tentou tranquilizá-lo e continuou.
— Quando se passou o problema, o mundo parecia que me caía em cima. Se Cristo teve as provações que teve, foi também para nos dar o exemplo de não fraquejar nas adversidades que enfrentemos.
— Caro Padre António, não me julgo sabedor do sofrimento pelo qual possa ter passado, mas sabemos que é mais fácil falar que passar por elas — interrompeu Fernando em apoio do seu antigo mestre.
— Fernando, nós temos uma vantagem, nunca estamos sozinhos quer na nossa vida espiritual quer terrena. Na sequência desses problemas, foi-me sugerido, e aceitei, fazer um retiro e por isso recolhi-me na Casa Diocesana de Castelo de Vide. Ali passei uma temporada em meditação e longe do mundo. Benditas sejam as Irmãs que me acolheram.
— Benditas sejam — Fernando concordou.
— O Senhor, todo sabedor, fez-me o favor de eu já não ter os meus pais para não terem assistido a tal situação porque não sei como aguentariam — sentia-se em António um quase perfeito controlo das suas emoções mas, nesse momento, uma voz embargada e as mãos laboriosas que não davam descanso ao guardanapo denunciavam que nem toda essa disciplina de muitos anos lhe valia.
— Quero partilhar consigo algo que pode ter tanto de bom como o seu contrário. Enquanto o seu problema foi notícia, não havia quem não falasse do assunto até à exaustão. Passado pouco tempo caiu no esquecimento como se isso não tivesse tido qualquer importância — talvez Fernando quisesse arrefecer um pouco o tema, mas as palavras não lhe estavam a sair com a candura nem com a elegância que a situação pedia.
— Só quem sofreu não esquece — nem mais uma palavra António conseguiu dizer e fez-se silêncio.
Era imperativo para António não aprofundar este tema que assim o revivia.
António, a custo, disse que para ele ainda era um mistério como a sociedade, de um dia para o outro, podia dar tanta atenção a algo que destrói alguém e, com a mesma velocidade, desligar-se disso como de nada se tivesse tratado.
Apesar do peso que o assunto tinha para António, Fernando sabia que só uma conversa mais profunda podia ajudar o seu mestre e agora amigo.
— Entre a catequese, os irmãos de Emaús e as peregrinações à Terra Santa, não segui bem todo o assunto. Quer dizer, sei mais ou menos o que aconteceu, por causa da comunicação social, mas muitas perguntas ficaram por responder — Fernando sentiu que tinha deslizado na cadeira por isso ajeitou-se para ouvir e continuou.
— Receio sempre que aquilo que vemos e ouvimos nos média depende das tendências políticas do meio em causa, o que é uma maçada quando o que quero é estar informado — com um franzir de sobrolho, olhar de esguelha e um pesado recostar na cadeira de plástico, Fernando tentava que António explicasse o que aconteceu.
— Pois é, foi uma grande confusão. O que ouviste foram os ecos da apresentação do relatório que a Conferência Episcopal encomendou à tal comissão independente há um par de anos. Foi amplamente distribuído — referiu António visivelmente consternado.
— E, segundo o que sei, foi distribuído sem qualquer outro cuidado – interveio Fernando que não se ficou por aqui.
— Durante um tempo, enquanto falavam disso durante o dia todo, dei conta que comentadores, jornalistas e influencers não falavam de outra coisa. Nessa altura perguntava-me, de entre tanta gente, quantos teriam efectivamente lido o relatório e quantos teriam as bases académicas, científicas ou somente alguma preparação para debater o tema. Bem sei que qualquer um tem direito às suas opiniões, mas isto dá azo a julgamentos em praça pública sem direito de defesa.
— Pois, essa é uma das grandes questões. Também não sei se houve algum despiste quanto às motivações de quem participou no relatório. Com o devido respeito, será que a nossa hierarquia não pensou nisso? Ou haverá o risco de alguns membros da nossa Igreja utilizarem a causa das vítimas para ganharem relevância mediática pessoal? São dimensões muito difíceis de encarar, mas devemos ter coragem de as questionar — António sabia que este era um terreno muito pantanoso.
Fernando, apanhado de surpresa e face a um assunto tão polémico, ficou dividido entre o apoio ao mestre e o recato face ao tema.
— Meu Deus, não é a primeira vez que oiço essas preocupações. Já tive conversas com outros irmãos em que o tema foi abordado – Fernando segurava a testa apoiando-se sobre a mesa.
— Sim, valha-nos o Senhor. Há algo que repito desde o início: concordo que tenha de haver uma limpeza interna, há também que reconhecer o sofrimento das vítimas sem qualquer atenuante e, o fim do clericalismo peca por tardio — com ar mais sério António, parecia-se recompor das palavras anteriores o que também deu algum ânimo a Fernando.
— Pois é Padre António, também esses assuntos não são novos e lembro-me de já os termos discutido nos meus tempos de Seminário, veja ao tempo que isso já foi.
António, já descontraindo os seus hirtos ombros magros, referiu que a resolução de um problema tão grave deve ser feita com humildade e discrição e não através de constantes intervenções nos órgãos de comunicação social que parecem servir mais para promover a imagem do clérigo moderno ou reformista.
Fernando, conforme ia ouvindo estas elaborações mentais, sentia-se outra vez à frente do seu mestre. Bebia cada palavra como se bebe água da fonte original.
Para António, este barulho mediático desvia o processo do essencial: a oração, a reparação espiritual e o acompanhamento privado de quem sofreu.
— Há um assunto deste relatório que me causa uma enorme repulsa — António, com um ligeiro inclinar de cabeça e a mão levantada, assinala que irá explicar algo importante.
Fernando, tal como no passado, redobrou a atenção após ouvir as próximas palavras.
— Quem ler o relatório, vai-se dar conta da utilização de métodos matemáticos para se chegar àquele número astronómico de vítimas, e isso é algo com o qual não posso concordar. Uma vítima é alguém identificável e não uma estatística. O uso destas metodologias pode distorcer a perceção da realidade concreta e identificável – António, já muito dinâmico, trazia à luz o académico em si e marcava desta forma, uma das suas críticas ao relatório.
— Pois é, não tinha pensado nisto e não acredito que a maior parte das pessoas que ouviram falar do relatório o tenham feito — disse Fernando com um sorriso colegial.
António, já mais direito na cadeira, acariciava o terço que, para além do seu nome próprio, era a única peça que tinha herdado da avó.
— Sem questionar os direitos das vítimas que não são discutíveis, parece-me que este relatório irá servir muito para que certos sectores da sociedade, sempre anticatólicos, o usem como arma de arremesso contra a Igreja e sem respeito para com essas vítimas. Aliás, até posso dizer que, a esta altura, não será difícil mostrar uma miríade de exemplos de casos desses.
Fernando, sempre cuidadoso com os temas políticos, com os quais se encontrava menos à vontade, concordava com António, mas também sabia que era um assunto sem solução.
— Mas Fernando, dói-me, mas dói-me tanto ver que tantos e tantos de nós tenhamos sido postos no mesmo saco de culpados sem direito a defesa nem contraditório. Nem sei o que diga. A forma como o relatório foi distribuído, permitiu dar voz a agendas anti igreja que só esperavam encontrar onde se possam agarrar para generalizar sobre estes problemas e os clérigos, todos sem exceção, passaram a criminosos. Mais uma vez: há que cuidar e apoiar as vítimas. Porém, a generalização não faz isso, só cria mais vítimas – com voz trémula, António mal conseguiu fazer entender as últimas palavras e Fernando veio ao seu auxílio.
— Padre António sabe a verdade, Deus sabe a verdade e nós sabemos a verdade e ela é só uma.
Fernando percebeu que António não se queria referir especificamente ao seu caso, mas era evidente que estava aqui incluído.
— Padre António, houve uma vez, durante o que me pareceu o seu período mais difícil, em que falámos e disse-me que estava retiro? Foi lá em Castelo de Vide?
— Ahhh … sim foi, que bela temporada e tão bem que cozinham as irmãs — o sorriso espontâneo de António quebrou o peso e gravidade do momento.
— O Padre António não veio de lá mais gordo, ao contrário de mim que ando sempre à procura de mais um furo no cinto – Fernando apanhava a deixa e conseguiu uma gargalhada a dois.
António, pousando os antebraços na mesa coberta com uma toalha de vinil em tudo parecida com as que a avó tinha em sua casa, encontrou a sustentação para continuar as suas considerações sobre o dito relatório.
— Por fim, não ponho em causa a necessidade de justiça para quem, efetivamente seja culpado. Não faltava mais nada. Mas, onde deixamos a misericórdia e o perdão que apregoamos? Se Jesus perdoou os seus carrascos, seremos nós que não iremos perdoar os nossos irmãos faltosos? – António, endireitou-se e, agora com a mão direita sobre o coração, fazia uma pausa de reflexão.
Fernando, sentindo-se a navegar em mares desconhecidos, não tinha palavras para acompanhar o mestre que se mostrava na sua plenitude.
António não punha em causa a independência do estudo, mas contestava a sua imparcialidade, bem como as metodologias.
Fernando tentava manter um sorriso jovial apesar do ar grave de António, sentindo que era tempo de mudar de agulhas.
— Padre António, “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” — Fernando rematou. Elevou-se um pouco para a frente e esboçou o mais rasgado de todos os sorrisos.
A citação, conhecida de António, fê-lo rir a bom rir e teve todo o efeito que Fernando queria.
— Vejo que te ensinei bem. Mas diz-me Fernando, como estão as coisas na tua paróquia? Ainda me lembro da tua Missa Nova… — encaminhando a conversa, António alimentava-se das boas novas do seu discípulo.
Isolados do mundo no meio da multidão que lá fora se engrossava, António e Fernando barafustaram em uníssono com o fumo do grelhador que por momentos os envolveu e finalmente começaram a partilhar as que poderiam ser as melhores sardinhas do mundo.
Servidas numa travessa de inox, viam-se brilhantes de tão gordas que estavam.
— Vamos lá … isso é para comer tudo — ordenou Pedro enquanto servia os amigos, sorrindo de cumplicidade.
Teriam os novos comparsas de Fernando percebido que ali estavam sentados dois padres? Nunca saberemos.
O que é certo é que, talvez, se antes soubessem que Fernando o era, a anterior conversa não teria acontecido ou teria sido diferente.
E nisto, no meio do burburinho, destacou-se um apelo.
— Manel, afasta-te daí que vêm os clientes — a voz de Maria era inconfundível.
Manel foi lá dentro da casa buscar uma cadeira que estava à volta da mesa da pequena sala de jantar e trouxe-a cá para fora para se sentar a um canto.
Lá fora ouviu-se a banda a começar a cantar “O Pai da Criança” e a multidão a acompanhar em coro.
O arraial estava, finalmente, completo.

David Monteiro

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