Luísa e o 28

Lisboa, o «28», uma viagem. Um encontro improvável que cabe num abraço e numa vida inteira.

Subitamente, o elétrico travou e Luísa, que estava sentada vagueando com o olhar pela janela, sentiu-se ligeiramente projetada para a frente. Porém, de imediato, o seu corpo voltou ao fofo encosto de napa verde.
Há muito que não andava de elétrico, mas não dispensava uma voltinha quando regressava a Lisboa.
O som envolvente dos motores elétricos ressoava por todo o interior do veículo. Sem aviso prévio, o silêncio interrompeu a maquinaria retumbante.
Esta quebra de monotonia fez Luísa descer à Terra, escondida que estava pelos óculos escuros e vinda do mundo semi-imaginário em que a sua cabeça tinha mergulhado durante a viagem.
Há uns anos, Luísa, enfermeira, havia-se mudado para Londres e aí ficou a trabalhar, no Royal Free Hospital. Desde então, as visitas a Lisboa eram cada vez mais espaçadas.
Bastava-lhe chegar a Lisboa para esquecer a ansiedade que antes lhe dificultava a respiração e chegar ao bairro da Graça era entrar no seu quarto de menina, o seu refúgio e amanhecer sereno.
Trim-trim… trim-trim… As campainhadas apareceram aos pares e monopolizaram a atenção dos utentes do «28».
Aos comandos do veículo, o condutor gesticulava furiosamente. Consoante levantava e baixava os braços, a parte superior da sua farda antracite assim bailava.
As portas de correr que o separavam dos passageiros também impediam que Luísa ouvisse o que ele dizia. Mas não era necessário ser adivinho para perceber que o homem estava furibundo.
Cada leve balançar de costas que o homem fazia coincidia com as campainhadas ao que se seguiam mais um par de esbraçadelas.
De súbito, o funcionário da Carris denunciava a sua irritação dando valentes patadas no pedal da campainha do elétrico. Nada mais do que um carro estacionado em segunda fila impedia o elétrico de continuar e era a causa dessa barulheira.
— É que nem sequer põe os piscas — vociferava o homem.
— Guarda-freio — sussurrou Luísa para si própria com um ligeiro sorriso enquanto se lembrava do nome correto para o condutor do elétrico.
«Pobre homem, está mesmo aborrecido», pensou Luísa enquanto apreciava a rua, as pessoas e tudo o mais que por ali andava.
Por muito importante que o caso fosse para o guarda-freio, não era o suficiente para abalar Luísa que se deliciava com este cenário mundano.
Do lugar onde estava sentada não conseguia ver o carro de que já se falava dentro do elétrico, a não ser que metesse a cabeça de fora. No entanto, abrir estas janelas era sempre um pesadelo.
Luísa seguia nos seus pensamentos quando uma mão, de onde saía um leve odor a lixívia, esgueirou-se pelo seu lado esquerdo.
— A menina não se importa? — uma voz cândida perguntou a Luísa.
A pergunta mais não era que uma informação e, sem esperar resposta, a mulher levantada atrás de Luísa, com a mão direita agarrou a lingueta de cabedal da janela que estava ao lado de Luísa e com a mão esquerda deu o jeito que faltava. Puxou a janela um pouco para cima e para si e depois deixou-a deslizar para dentro de uma ranhura que havia em baixo.
Tão lisboeta como tantas outras lisboetas da sua geração, a dita mulher trazia na cabeça um lenço que lhe cobria os cabelos e meia bochecha.
— Arre, que estas janelas são sempre um desespero para abrir — disse a mulher, sorrindo para Luísa e em jeito de partilha.
— Obrigada, estava mesmo a pensar nisso — respondeu-lhe Luísa em cândido agradecimento.
Instintivamente, Luísa pôs a cabeça para fora e, sem novidades, viu o carro responsável pelos chamamentos do guarda-freio.
— Nestas alturas em que a Polícia é precisa é que não há nenhum à vista. Se fosse o meu carro mal estacionado, já me tinham multado — afirmou categoricamente o guarda-freio indignado.
Alguns passageiros, solidários com esse fatalismo português, não tardaram em juntar-se ao exercício de descompor o dono da viatura prevaricadora.
Em seguida, um senhor baixo e gordinho, vindo de um dos prédios, apareceu para tirar o carro. Vinha em passo de corrida, querendo mostrar a sua prontidão e levantou a mão direita em jeito de pedido de desculpas, entrou no carro e arrancou.
— Palerma — disse o guarda-freio, contendo-se para não lhe dar mais duas campainhadas. Sem mais, fez o elétrico seguir a sua marcha encosta acima.
Alheios a esta cena quotidiana que, tal como o sino da Penha de França ao domingo de manhã, retumbava nas cabeças dos locais, os turistas que estavam no «28» viviam o momento atónitos e de olhos esbugalhados, sem saberem o que dizer ou pensar, mas com a sensação do maravilhoso e do very typical.
Entretanto, na zona dianteira do elétrico, um grupo de animados jovens sentados na outra fila de bancos, tinham acabado de descobrir que os encostos dos elétricos são reversíveis.
Foi então que uma das moças, tão pequena como uma sardinha, esticou a sua mão branca pintalgada de sardas alaranjadas, agarrou na pega reluzente do encosto de napa e, aplicando-lhe alguma força, puxou-a para si fazendo o encosto do banco deslizar para a outra extremidade do assento e deixando os dois assentos frente a frente.
A alegria do grupinho não ficou confinada às jovens galhofeiras e alastrou-se a uns quantos passageiros que se juntaram à celebração com palmas e sorrisos.
De um canto mais atrás da viatura, apesar do barulho, ouviu-se o som familiar, e tentativamente discreto, de um disparar de cliques.
Um passageiro, de expressão muito séria e muito compenetrado no que fazia, disparava a sua máquina fotográfica, rodando-a e inclinando-a à procura do melhor ângulo para eternizar o momento.
Luísa deu por si de tronco completamente torcido olhando para o fundo do veículo onde o fotógrafo com ar asiático se fazia notar. Foi então que reparou que a senhora que abriu a janela lhe sorria com ar familiar.
— Menina? Ai quase não a reconhecia. Que emoção!
Luísa, apanhada de surpresa e um tanto perturbada pela imagem de alguém que não reconheceu de imediato, tirou os óculos escuros e olhou para a senhora.
Sentiu-a tão familiar como as saudades de casa, mas, no entanto, conteve a súbita vontade de abraçar aquela senhora.
Essa sua surpresa não passou despercebida. E, enquanto Luísa ainda se recompunha, a mulher já encantava.
— Oh menina, não diga que não me está a reconhecer — nitidamente enternecida, a mulher inclinou a cabeça, com um olhar vago e sorriso sincero a acompanhar.
Como dizer a esta criatura tão doce que, mesmo não se conseguindo lembrar de quem ela era, a amava e queria abraçá-la como um cãozinho que não vê o dono há dois dias?
Um brevíssimo compasso de espera foi o suficiente para a mulher reforçar o seu carinho.
— Ai menina, pelo amor da santa, abrace-me antes que eu me ponha aqui a chorar — com este pedido não havia forma de Luísa resistir.
Os braços abertos da mulher que, como se não fosse o suficiente, lhe lançou um olhar de carneiro mal morto, desarmou completamente Luísa que quase também se desmanchava em lágrimas.
Desconcertada, sem compreender porque sentia algo descabido, mas sem poder resistir a uma força maior do que a vergonha e o embaraço, Luísa cedeu ao impulso e abraçou a senhora que se comovia.
O peito quente e farto desta mulher trazia com ela todo o carinho do mundo. Era o aconchego por que ansiava em Lisboa, o calor de casa.
Emigrar tinha sido mais do que uma decisão — fora um processo que aceitara, mas não como algo definitivo. E, momentos como este, inesperados, mas possíveis em Lisboa e impossíveis em Londres, enchiam-na de pensamentos de regresso.
Por entre todas as boas recordações de infância, Luísa vasculhou a sua caixa de memórias procurando quem tanto amor lhe tinha dado.
De repente, uma imagem dos seus tempos de menina fez todo o sentido.
A mãe de Luísa, que tinha sido Técnica de Ação Educativa na Voz do Operário — as antigas contínuas, como toda a gente as chamava ainda. Cresceram ali dentro, casaram, tiveram filhos, e a escola tornou-se uma família alargada.
Quando Luísa, ainda muito pequenina, aparecia na escola era como se tivesse muitas mães.
Assim eram os afetos nesses tempos.
Seria a mulher uma dessas antigas colegas da mãe?
Luísa lembrou-se também de D. Angelina, que fazia umas horas lá em casa porque a mãe detestava limpar o pó e voltar a arrumar os bibelots.
Mas não podia ser. A D. Angelina era seca que nem um bacalhau da loja do Sr. Antero.
— Menina… — repetiu a senhora dos olhos de cachorrinho.
Inconscientemente, Luísa contava com a duração do abraço para encontrar tal personagem entre as suas memórias.
— D. Angelina? É a senhora? — Luísa, meio desorientada, tentava a sua sorte sem sucesso.
A senhora falou-lhe das saudades que tinha dela.
O «28», como habitualmente, abrandou a marcha ao final da Rua Angelina Vidal, antes de virar à direita para a Rua da Graça.
Apesar de não ser uma curva muito apertada, é um local de constantes movimentações e não raras vezes também há carros mal estacionados a impedirem a passagem dos elétricos. Mas não foi o caso desta vez.
Trim-trim… e o guarda-freio levantou a mão saudando outro funcionário da Carris que, impecavelmente fardado, estava imóvel na calçada e que retribuiu a saudação. De imediato, também saudou outro colega que passava mais longe, ao volante de um autocarro na Rua dos Sapadores.
Entretanto, o elétrico aproximou-se de um dos locais pelos quais Luísa ansiava revisitar: o prédio do antigo cinema Royal.
Ali quase em frente, o «28» recolheu quem aguardava pacientemente na paragem.
De entre os novos passageiros, entrou uma mulher envergando um uniforme de profissional de saúde. Apesar da sua pequena estatura, as mangas curtas da sua bata revelavam braços morenos habituados a desenvolver força.
Luísa acompanhou a mulher com o olhar, recordando-se de algumas colegas e por segundos a sua cabeça divagou pelo hospital em Londres.
Sorridente e expedita, a mulher fez um ligeiro aceno ao guarda-freio, que lhe devolveu a simpatia com um sorriso. Percorreu o corredor do elétrico, sem que este abandonasse a paragem onde se encontrava, e dirigiu-se à então nova amiga de Luísa.
— Olá D. Antónia, vamos embora? — disse-lhe de forma cândida e segura.
Percebendo pelo olhar de pura admiração que Luísa revelava, a profissional de saúde comentou:
— Espero que a D. Antónia não a tenha incomodado. Ela mete conversa com toda a gente. — E voltando-se para a sua paciente: — Não é, D. Antónia? É um amor de pessoa, gosta de companhia.
Com o seu olhar amoroso, D. Antónia levantou-se e seguiu a profissional de saúde, abandonando o elétrico sem olhar para trás.
O elétrico retomou a marcha em direção à Graça.
Luísa, enquanto se refazia do insólito que havia acabado de viver, teve o justo tempo de voltar a colocar os óculos escuros, refrear os soluços e guardar os lenços de papel que agora guardavam a prova do aperto e engasgo que sentia.
O «28» aproximou-se da última paragem. O grupo de jovens animados acotovelava-se à saída em azáfama ruidosa, enquanto alguns turistas não sabiam muito bem o que fazer.
Luísa deixou o conforto do fofo encosto de napa verde, levantou-se, ajeitou-se e preparou-se para sair.
Cá fora, já no Largo da Graça, a vida do bairro acontecia. O quartel de bombeiros tinha as suas grandes portas vermelhas escancaradas, as instalações militares recentemente pintadas de azul bebé e, no largo de cima, mesmo no centro ao lado do tanque, o velho coreto metálico gritava por reparações.
Estava de novo em casa.

David Monteiro

NOTA: a imagem deste texto é uma ilustração de Inna Korneeva

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