Andaimes

Um poema sobre andaimes leva-me a pensar em tudo o que nos erguem e que, no fim, ninguém recorda.

O poema Scaffolding de Seamus Heaney apanhou-me de surpresa. Como se no mundo não houvesse assuntos mais importantes, os andaimes são iluminados neste poema à escala de monumentos.
Também em mim, tal como no poema, os andaimes foram necessários para construir as pontes e os viadutos que me unem ao mundo. Fundamentais para tais edificações, têm um princípio, meio e fim.
Durante a sua vida útil, a grande admiração e atenção são neles focadas. Nessa altura, quem quer que queira ter uma ideia do que se está a construir ou do que vai ser construído, terá de ver a maquete e usar um pouco de imaginação.
Dominam o reino do espanto.
Mas a mudança de estatuto é inevitável e acentua-se com o aproximar do final da obra. Quando o monumento estiver pronto, a anterior necessidade de imaginação dará lugar à observação e os andaimes começarão a ser desmontados.
Os paus, ferros, pranchas e escadas acumulam-se na praça. Paulatinamente, estes itens são carregados num camião e todos desaparecerão ao fundo daquela rua.
Finalmente é inaugurado o monumento e filas intermináveis de visitantes alinham-se à entrada da nova maravilha.
Mas, dos andaimes, fundamentais para o objetivo final, nem memória.

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