Ilha de São Vicente – Cabo Verde

Costureira em Mindelo

No Quintal das Artes, em Mindelo, as mãos de Jandira movem-se delicadas e exatas, conduzindo os tecidos até à agulha da máquina que, martelando, une as peças e lhes devolve com uma nova identidade.

Quem entra no Quintal das Artes, em Mindelo, talvez não espere encontrar arte na costura das peças do quotidiano. Mas é isso que acontece no pequeno espaço de Jandira, onde, contrariando o mundo da roupa industrial, os tecidos voltam a ganhar mãos.

Fatos de batizado, arranjos vários, bolsas, calções para alguma cerimónia infantil. A diversidade do que ali se faz é tão grande quanto o trabalho que tem pela frente.

Já nos conhecíamos de outras ocasiões. Voltei para encomendar pequenos presentes que queria ver nascer de alguém local e aproveitei para lhe pedir que me deixasse fotografar as mãos.

Sorriu-me com o olhar, receosa de ser atrapalhada face ao muito trabalho que tinha pela frente.

Tranquilizei-a, dizendo que devia continuar como se eu ali não estivesse. Voltou a sorrir, descrente, mas aceitando com timidez.

Parca em palavras, seguiu o seu trabalho que me parecia infinito e as suas mãos não pararam um instante. Delicadas e exatas, conduziam os tecidos até à agulha que, no seu martelar, unia as peças e lhes dava nova identidade.

Ao seu lado, uma companheira de mesma quietude levantou os olhos da máquina apenas para me sorrir e consentir que também a fotografasse. Não lhe registei o nome, mas guardei na memória as suas mãos doces.

O espaço não tem janelas. Ilumina-se pela porta sempre aberta, por onde quem passa lança um olá e dois dedos de conversa.

Esta visita acompanha-me muito para lá daquele momento e faz-me sorrir a cada lampejo de memória.

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