E se eu …

Um duelo de olhares numa esplanada de Alfama. O meu desejo, a minha lealdade e duas alianças.

Os nossos olhos esgrimiram-se em duelo relâmpago que nos feriu de doçura. Adorámos.
Sabemos, mas não o confessamos.
A manhã passada a caminhar na zona de Alfama, permitiu-me fazer a revisão do percurso da visita guiada que costumamos fazer aos turistas que nos visitam.
Quilómetros andados na dura e escorregadia calçada portuguesa e sentia-me relaxadamente cansado.
Lá para os lados do João da Praça, vi a esplanada que parecia ter sido enviada por providência divina. No sítio certo à hora certa, com suficientes lugares vagos e sombra abundante.
Já a viver antecipadamente o prazer de beber ali uma cerveja gelada, agarrei na cadeira onde sentado, tudo isso iria acontecer.
Uma resistência contínua criou um agudo sentido de dissonância. Por uma fração de segundo o meu cérebro não acompanhou a realidade, não entendeu o que mais simples se poderia passar: outra mão também puxava a cadeira.
Ainda desconcertado, vi uma mulher que, também atónita, sofria da mesma admiração ao sentir que a cadeira não reagia como ela esperava.
Ainda dentro desse estado de confusão, o meu ventre foi tolhido por uma contração provocada pelo olhar fino e profundo que acabava de receber.
Ao recordar-me deste momento, é clara a imagem de duas almas que olhando-se, procuram as palavras que vacilam entre os lábios abertos, o olhar fixado e essa estocada a pares.
Tudo é tão novo ou tão raro que a memória deste homem maduro não o identifica.
Não me sobram dúvidas da sua raridade.
Queria apenas que essa dor benigna não tivesse fim.
Com um sorriso automático e sincero, cedi a cadeira no mais puro ato de gentileza, mas também cedendo levemente ao apelo da sedução contida.
Ainda agindo sobre esse golpe de encantamento, sorri forçando o queixo a levantar-se da sua posição inferior e ordenando ao olhar que procurasse outra cadeira vaga.
Um ligeiro rubor das faces dessa linda criatura misturava-se no caramelo da sua pele morena que os meus olhos insistiam em contemplar.
Contive a urgência de unir as nossas mãos, mas o coração independente disparou sem dono.
Agarrei outra cadeira e sentei-me. Ela estava mesmo ao meu lado.
Haviam outras mesas e cadeiras livres? Só me recordo que os nossos olhares se apanhavam mutuamente em falso.
Sem qualquer novidade, os meus olhos insistiam em coincidir com os dela ao que se juntavam os nossos sorrisos dissimulados.
O dia soalheiro suavizava o frio natural da época em que a luminosidade quebrava a neura dos dias anteriores.
O empregado trouxe o café que ela havia pedido e, acompanhando a bebida fumegante, um bolinho miniatura cujo amarelo pálido contrastava com o exótico baunilhado da sua pele morena.
Aqueles olhos diziam-me o que aos lábios era vedado e que os meus não podiam responder.
As suas roupas ajustadas à estação do ano escondiam o corpo maduro que eu só podia imaginar. Mas o que eu via, um casaco de linho fino, claro e translúcido que convidava a desenhar os contornos que quase se adivinhavam, era real.
Cedi à fantasia e vi o vestido, bege claro com flores de rosa-pálido, moldando-lhe as ancas elegantemente preenchidas.
Rendido ao poder dos seus lábios, de um vermelho tão escuro que se misturavam com castanho, fui invadido por esse feitiço carnudo em tudo alinhado com a doçura do olhar.
Quando forcei que o meu olhar se desviasse dos seus, deslizei pelos seus cabelos fartos que lhe caíam pelos ombros em madeixas douradas, exóticas e ao mesmo tempo familiares. O meu coração acelerou e fingi não perceber o que sentia.
Tudo se intensificou quando percebi que as suas pernas traçadas deliciavam-me com o seu leve balançar em que a sandália cor de mel realçava os seus pés cuidados e sensuais.
Tocou o telemóvel dela e caí em mim sem saber há quanto tempo estava embasbacado, pairando nas correntes da minha imaginação.
Não consegui perceber a sua origem mas, pelas poucas palavras do português dela que captei, apostaria em algum país africano.
Ela distraiu-se com a chamada e eu pude descansar do estado de hipnose em que tinha entrado e senti-me estranho.
Terminada a chamada, perguntou ao empregado onde ficava o Palacete Chafariz d’El Rei. O moço respondeu-lhe que o chafariz era ali perto mas o palacete não sabia onde ficava.
– É um pouco mais à frente à direita, mesmo perto daqui, é um hotel de estilo vintage, muito bonito – respondi eu, metendo-me na conversa.
O rubor que lhe possa ter faltado antes, deu-se ao mundo em todo o seu esplendor e os nossos olhos falaram.
Um breve silêncio fez-me duvidar de mim próprio. Talvez a minha intervenção tenha sido imprópria.
O empregado, que mais nada disse, sorriu e afastou-se.
– Muito obrigada – disse ela sorrindo.
Sem conseguirmos mais evitar, frente-a-frente, deixámos que os nossos sorrisos fizessem o resto das apresentações.
– Daqui a pouco tenho que ir até lá. Ligou-me agora mesmo uma prima que está lá alojada e vamos tomar um café. Crescemos juntas.
A conversa, como as águas quentes da chuva de verão, era macia e deslizava naturalmente.
Concordámos que já nos conhecíamos e preferimos dizer que não sabíamos de onde.
– Ou talvez nunca nos vimos antes – disse eu esticando a corda.
– Ou talvez tenha sido numa outra vida – sorriu ela com ar maroto.
E ali ficámos perdidos no tempo. A conversa fluía e, o que quer que existia entre os dois, tornava-se mais denso e as palavras ganhavam leveza.
A prima voltou a ligar um par de vezes e não me atrevi a dizer que a acompanhava até ao hotel. Talvez por querer eternizar este momento ou com medo do destino final que podia concretizar.
Em luta feroz entre o querer e a lealdade, fui dividido entre esses mundos em que desejava que um deles ganhasse e tudo o mais em mim recusava perder.
Uma certa doçura no seu olhar concedeu-me o espaço de a minha mão se colocar ternamente na sua e assim o fiz.
As nossas duas mãos esquerdas, de pele cor de âmbar antigo, ficaram lado a lado exibindo os sinais dos nossos compromissos anteriores, e o mais belo e profundo dos sorrisos disse-me que era hora de me levantar.
Os olhos não se seguiram, mas sei que os corações não se esqueceram.

David Monteiro

NOTA: a imagem deste texto foi criada com recurso a IA

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