Redondo – Portugal

Músicos

Numa manhã quente nas Ruas Floridas do Redondo, dois rapazes tocam para a multidão. As suas mãos, jovens e delicadas, movem-se com tal ligeireza que custa imaginá-las no trabalho da terra.

Ainda era cedo e o calor já apertava. Como sempre, as Ruas Floridas atraíam milhares de visitantes, prontos a encher as ruelas da vila.

Cheguei cedo para fotografar mas, tal como nos dias anteriores, em pouco tempo o sol passou de tolerável a insuportável, e as esplanadas dos cafés, onde a sombra dava descanso, depressa se encheram de gente.

Pouco antes desse momento previsível, dois rapazes acomodaram-se no centro da praça ladeada por essas esplanadas, onde poderiam ter audiência.
Sentados entre o sol e a sombra, o calor parecia não os incomodar.

Demoraram-se no que tomei por exercícios de aquecimento de mãos e voz. Ondulações dos dedos, leves torções de pulso, sacudidelas enérgicas e sons aparentemente desconexos compunham o ritual.

Entretanto, sem aviso, um olhar e um sorriso de cumplicidade disseram “já chega” e, em perfeita sintonia, começaram a tocar. Vieram aplausos espontâneos. O trabalho de casa dera frutos, a audiência estava conquistada.

Tocaram músicas alegres e conhecidas, e as mãos, que transbordavam de juventude, moviam-se com uma ligeireza desarmante. A delicadeza daqueles dedos acabou por limitar a minha imaginação, negando-lhes qualquer quotidiano na agricultura.

Não era o momento ideal para conhecer as suas histórias. Mas quem sabe se o futuro não nos guardará melhor oportunidade.

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