Irlanda
Condutor em Killarney
Mãos habituadas ao ofício, tranquilas no volante. Sem tensão, sem pressa. O gesto silencioso de quem conhece cada curva e conduz como quem respira.
Duas oportunidades profissionais levaram-me a Killarney, numa feliz coincidência que não estava nos planos.
No reboliço das exigências do trabalho, dos grupos a coordenar e dos imprevistos que insistem em aparecer, sobressaiu a tranquilidade de um dos motoristas que, com exatidão silenciosa, movimentou pessoas e bagagens para os seus destinos. O seu nome, injustamente esquecido, foi a solução para os numerosos contratempos logísticos que teimavam em tomar vida própria.
Não consigo imaginar como será a sua condução nos momentos privados. Conduzirá depressa? Será igualmente cuidadoso quando ninguém o observa? Ficarei por saber.
À falta de guias locais disponíveis, não hesitou em partilhar informações que ajudaram os presentes a situarem-se no espaço e no tempo, perante algumas das maravilhas que a região oferece com generosidade. Fê-lo sem pompa, como quem conhece bem o valor daquilo que tem à porta de casa.
As mãos que gentilmente seguravam o volante denunciavam tranquilidade e ausência de tensão. Mãos habituadas ao ofício, que sabem distinguir uma curva fechada de uma reta longa sem que os olhos precisem de avisar.
Parece-me que não estão longe os dias dos veículos sem condutor para uso generalizado. Quando esse tempo chegar, não iremos usufruir de tão agradável presença. E será uma perda silenciosa, dessas que só se percebem quando já não há remédio.





