Ilha de Santiago – Cabo Verde
Carpiteiro de barcos em Porto Mosquito
Mãos experientes que martelam, seguram e examinam com a autoridade silenciosa de quem aprendeu o ofício sem livros. Em Porto Mosquito, são as mãos que contam a história.
Em Porto Mosquito, no sul da Ilha de Santiago, a estrada acaba e o mundo abranda.
As casas são simples, os campos secos, os animais vagueiam despreocupados. A vida organiza-se à volta do mar.
Na praia de seixos negros, uma fila de barcos de madeira espera reparação. As cores gastam-se, a madeira cede e são poucas as mãos dispostas a fazer o que é necessário.
Foi o martelar certeiro que me chamou. Três homens debruçados sobre um casco vermelho, a discutir no crioulo local com a autoridade de quem conhece o ofício de memória.
As mãos falam tanto quanto as palavras: uma segura, outra bate, a terceira examina. De conserto de barcos não percebo nada, mas aquela conversa tinha uma lógica própria que não precisava de tradução.
Pedi para fotografar e a resposta foi imediata, assim como a curiosidade sobre mim. Teria sido uma conversa longa, mas o meu sotaque de São Vicente delatou-me e preferiram passar ao português.
Perdi o crioulo, ganhei a história e, quando me despedi, as marteladas recomeçaram.
O barco tinha prazo para estar pronto. As mãos voltaram ao trabalho como se eu nunca tivesse ali estado, e foi exactamente isso que tornou o momento inesquecível.





