Ilha de Santo Antão – Cabo Verde

Cabeleireira em Pombas

Na Páscoa, em Santo Antão, fotografei uma cabeleireira em plena rua. A cumplicidade substituiu a invisibilidade, e as mãos dela, rápidas demais para a câmara, tornaram-se o desafio mais inesperado da sessão.

A Páscoa chega a Pombas com festa. Na frente marítima desta cidade da ilha de Santo Antão, as bancas da feira alinham-se, o palco aquece ao som das guitarras, e a cidade transborda de curiosidade.

Foi num desses momentos de animação que me cruzei com elas: cabeleireira e cliente, instaladas numa das barraquinhas, indiferentes ao vaivém de quem passava.

Aproximei-me com a câmara na mão. O olhar que recebi era mais de interrogação do que de recusa, e a autorização chegou com uma leveza quase desinteressada.

Fui disparando. A certa altura, senti que o jogo se invertia: já não era eu a observar, eram elas a observar-me.

Expliquei o projeto. Prometeram visitar o site e os sorrisos foram aparecendo, devagar, primeiro tímidos, depois soltos.

Para dar escala ao movimento que nos rodeava, recuei e tentei fotografá-las por entre os transeuntes. Elas perceberam a manobra, procuravam-me com os olhos e riam-se.

Tinha como premissa a menor interferência possível. Não correu bem assim. A câmara é sempre uma provocação, e elas tinham olhos e curiosidade suficientes para o perceber.

O que perdi em invisibilidade, ganhei em cumplicidade. Valha-me isso.

Em grande plano, surgiu um desafio que não antecipei: as mãos da cabeleireira moviam-se a uma velocidade surpreendente, e a câmara lutava para as acompanhar. Agora era eu quem se divertia mais.
Um solo de bateria anunciou o início do concerto. A sessão fotográfica tinha acabado.

Fico curioso para saber se algum dia virão ver estas fotografias.

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