Quando comecei esta coleção, não imaginei que fotografar mãos me obrigaria a enfrentar um dos meus medos mais antigos: abelhas.
Ao descobrir o local onde o mel estava a ser extraído dos favos, percebi que, se queria fotografar as mãos daqueles homens, teria de entrar num espaço fechado onde voavam livremente pelo menos uma centena de abelhas.
A forte vontade de cumprir os meus objetivos e o encorajamento generoso de quem ali estava foram decisivos para tentar ultrapassar esse obstáculo.
Já lá dentro, o ambiente surpreendeu-me. As conversas amenas, os gestos pausados e o zumbido suave das abelhas criavam uma espécie de harmonia que não esperava encontrar. A gentileza com que afastavam os insetos, quase sem os perturbarem, era digna de nota.
Pelas suas palavras fui percebendo que nenhum deles tem na apicultura a ocupação principal. E é tanto mais curioso porque os gestos e a coordenação coletiva denunciavam uma prática longa e continuada.
Mãos fortes, habituadas ao trabalho físico, dedicavam-se ali a tarefas que exigem minúcia fina e exata.
Não sei bem o que esperava, mas numa tarde destruíram uma resma de preconceitos meus sobre o que separa a força da delicadeza.
Com entusiasmo falaram-me da pureza do mel, dos benefícios do pólen e do desagrado que sentem perante tanto mel adulterado a ser vendido como puro, com prejuízo de quem confia no que compra.
O tempo que aqui passei não será esquecido.