Ambiguidade
Um diabo melancólico num banco de jardim. Uma conversa que ninguém esperava ter.
Será o diabo quem julgamos que é, ou será aquela faceta, também nossa, que julgamos só existir em pessoas que desprezamos?
Será o mal aquilo que não queremos que os outros sejam, mas que, quando vem de nós, tem sempre uma explicação que pensamos que nos vai absolver do pecado?
Estas perguntas, que antes me pareciam vagas e demasiado esotéricas, são agora frequentemente parte das minhas reflexões.
A razão dessa situação tem tanto de simultaneamente simples como de extraordinário e tem data, hora e lugar.
Estava em casa a trabalhar há várias horas, num dia que se seguia a outros tantos e que não recordaria. Mas, afinal de contas, desse dia as memórias ficaram indelevelmente marcadas.
Adoro os dias que amanhecem fresquinhos, e esse era um deles. O verão tinha sido particularmente quente e as constantes notícias de seca extrema foram a grande angústia dessa estação.
Chegava o mês em que as minhas viagens consecutivas também abrandavam e eu podia passar mais tempo nas Caldas da Rainha, a minha nova cidade que estava a adorar.
A caminho do café do meio da manhã, situação que pretendia rotineira, para além dos cheiros habituais que o vento oeste traz da zona agrícola, senti um odor crescente a enxofre.
Estranhei porque, para além de nunca ter sentido aqui tal cheiro, também não imaginava o que poderia ser.
Apareceu de repente, ou pelo menos assim pensei, e impôs-se de forma cada vez mais intensa conforme seguia o meu caminho.
Esta perturbadora exceção fez-me descer dos meus pensamentos e levou-me a procurar possíveis explicações.
Ao varrer a área com o olhar, vi, perto dos baloiços, a figura de um padre sentado num banco do jardim.
Classifiquei-o como padre pelas vestes negras que trazia. Mais atentamente, pareceu-me jesuíta, uma curiosidade que não tardaria a clarificar, pois ia passar ao seu lado.
Porém, essa curiosidade não era suficiente para desviar a minha atenção do cheiro sulfuroso que me começava a incomodar, mas que, de forma estranha, também lhe encontrava alguma humanidade. Era como se, ao mesmo tempo, cheirasse a gente.
Um arrepio desconfortável atravessou-me o tronco entre o peito e os rins.
Nada me poderia preparar para o que a seguir iria ver e ainda hoje me pergunto como tal foi possível.
De longe não teria como reparar, mas ao aproximar-me e conforme se intensificava aquele pivete, estando o dito padre meio de costas para mim, vi o que parecia ser um braço que lhe saía do fundo das costas.
A forma como esse braço se mexia levou-me a pensar que não podia ser tal membro. Parecia mais uma mangueira que se contorcia.
Um pouco mais perto, reparei que o pescoço do fulano era vermelho. Que não se pense que quero dizer avermelhado, quero mesmo dizer vermelho.
Foi difícil processar essa informação, para a qual eu não encontrava explicação.
Aquele ponto específico do corpo da criatura captou a minha atenção de tal forma que devo ter ficado embasbacado a olhar.
Um subtil movimento da cabeça, adornada com um barrete eclesiástico, fez o meu olhar subir uns centímetros e reparar no par de pequenos cornos que lhe saíam da cabeça escarlate.
É aqui que o leitor pode dizer que já é demais. Quanto a mim, só tenho duas hipóteses: ou conto o que se passou ou ignoro a sua totalidade.
A minha decisão foi clara.
Ainda não estava refeito da surpresa quando recebi a última estocada.
A criatura, possivelmente sentindo aquele peso de quem nos olha fixamente, rodou o corpo ligeiramente na minha direção, dirigiu-me o olhar e, como que seguindo o suave movimento de cabeça, o que antes me parecia ser um braço ou um tubo revelou-se uma cauda, que terminava numa forma pontiaguda de lança ou flecha.
A esta altura, já tendo desistido de procurar explicações razoáveis para a situação bizarra e ultrapassada a possibilidade de estar a sonhar, nada mais restava senão aceitar a inusitada realidade: eu tinha um diabo à minha frente.
Abandonar o local, ficar a olhar, falar… não sabia o que fazer, nem sabia se tinha de fazer coisa alguma.
— Olá — disse-me a criatura com um ar melancólico.
— Bom dia — respondi em modo automático.
Sem qualquer outra reação que não fosse o seu olhar de tristeza profunda, a criatura manteve-se impávida.
Todo o meu ser berrava de interrogação sem resposta, mas os olhos da criatura, à medida que o meu espanto se acalmava, demonstraram muito mais do que eu poderia esperar.
Com as pálpebras a pesarem-lhe de cansaço, uma pálida cor acinzentada substituía o amarelo que eu esperaria ver nos olhos de qualquer diabo. Ainda assim, uma certa humanidade vidrava-lhe o olhar.
Não há quem não reconheça esse profundo estado de tristeza. Era o espelho de uma alma desanimada que me surpreendia neste tipo de entidade.
Não sei se por solidariedade, educação ou oportunidade de meter conversa, perguntei o que se passava e foi também aqui que, de repente, caí em mim e tomei consciência de que estava a falar com um diabo.
É óbvio que até então, na minha cabeça, tal coisa era cenário de um filme de série B. Porém, o que para mim era algo impensável, para o dito cujo era toda a sua realidade e daí não vir nenhum espanto.
Sem pressa, de forma pesada e com olhar mortiço, falou-me do estado do mundo.
Listou pequenas coisas e outras que, não o sendo, levam o mundo por mau caminho.
Recordando tempos idos, falou da esperança que o mundo demonstrava, das famílias que cresciam juntas, das carreiras profissionais que, apesar de duras, eram mais certas e seguras. Alturas em que abundavam oportunidades de fazer o mal e em que isso aportava um sentido de equilíbrio.
— Sentido de equilíbrio? — não contive a indignação. — Que raio de coisa é essa?
Enquanto eu ouvia estas enormidades vindas de um diabo, alguns transeuntes passavam por nós sem se deterem, como se não se estivesse ali a passar nada de extraordinário.
Vamos lá ver, era um diabo que estava ali a falar. O que pode haver de mais extraordinário do que isso?
— Antes de lhe explicar, vamos clarificar uma coisa. Já percebi que me consegue ver no meu estado original — referiu a criatura com ar enfadado.
— Refere-se a eu estar a ver um ser demoníaco?
— Exatamente. Pode dizer diabo, porque é o que sou. Normalmente não aparecemos na nossa forma nativa. Ou, melhor dizendo, os humanos não conseguem ver-nos como somos.
— Então porque o vejo eu dessa forma? — tantas eram as minhas interrogações que pelo menos para esta queria ter uma resposta.
— Ainda é para nós um mistério como, de vez em quando, mas raramente, alguém nos vê como somos. É o seu caso. — referiu o diabo que parecia começar a descontrair, ou pelo menos a distrair-se, do que quer que o fazia estar tão melancólico.
— Quer isso dizer que há outros diabos por aí? — eu já estava por tudo, se havia um, porque não haveriam de existir mais uns quantos?
— Ahahahahah… sim, sim, muitos outros mais. Cada um de nós com a sua especialidade, mas somos bastantes. Compreendo o seu espanto. Se nunca viu nenhum diabo antes, é porque não tinha essa capacidade e agora tem. Aí reside a questão que não conseguimos explicar. — disse o diabo já em tom notoriamente divertido.
Entretanto, percebi que um dos cães da esplanada ali ao lado olhava-o fixamente. O pobre canídeo não parava de semirrosnar para o diabo padre. A criatura explicou-me que essa capacidade que eu demonstrava parecia ter paralelo em alguns animais, algo para o qual também ele não tinha explicação.
— Creio que isso possa dar alguma luz ao caso que, ainda assim, não fica menos insólito. No entanto, não sei dizer se por isso simpatizo mais com o assunto. Lamento. – disse eu ao diabo que estranhamente me pareceu muito divertido.
— Ahahahahaha, isso de não ter a sua simpatia é quase um elogio – ver este diabo afastar-se do que quer que lhe estivesse anteriormente a entristecer causou-me sentimentos contraditórios.
Afinal de contas, estaria eu a ajudar uma entidade cujo modo de vida é praticar o mal? Que sentido é que isto faz? A leve falta de ar de agonia e contradição deixou-me desconfortável e isso eu não queria mostrar à criatura.
— Vejo agora uma ligeira melhoria no seu semblante — disse-lhe eu. — Essa estranha alegria, face à situação, parece-me mais adequada ao seu estilo. Quando aqui cheguei, vi em si uma profunda tristeza que em nada coincidia com a ideia de alguém da sua natureza. Antes o previa com ar de patife.
A criatura ajeitou-se no banco do jardim e percebi que o que quer que lhe estivesse antes a incomodar, foi reavivado por essa minha chamada de memória.
— Parece que fui apanhado, mas sim, tem razão. Há uma frustração que me atormenta e me coloca num momento de encruzilhada, sem saber muito bem o que fazer — disse-o com um ar mais grave e de quem já não está divertido com o espanto de alguém.
Senti-me apanhado de surpresa com o que parecia uma fraqueza de quem eu julgava sólido.
— Como assim? Não me diga que há formas de fazer o diabo provar do seu próprio veneno? Essa é boa. Gosto disso. Mas antes de nos desviarmos por aí, satisfaça-me uma curiosidade que me está a matar: porque razão está vestido de padre?
Não havia forma de esperar a resposta que iria ter.
— Eu sou padre — disse o diabo com a naturalidade que só as firmes certezas podem dar.
Parei.
Ele disse que é padre?
Impossível. Como podia ser? Eu conheço padres. O meu crescimento foi positivamente marcado também por padres.
— É padre? Como assim é padre? — entre o espanto e a descrença, fiquei a aguardar a resposta.
— Ou você é muito inocente, ou então anda a dormir, só pode. – respondeu-me o diabo com a malícia de quem sabia que me ia magoar sem ofender ao ponto de o mandar bugiar.
— Não gostei do tom. — ser um diabo não lhe conferia direitos de ofensas.
— Só lhe fica bem não gostar do tom. Mas não invalida a questão.
— Não entendo. — estaria eu mais baralhado do que curioso?
— Porque razão se espanta de eu ser padre? Só porque sou um diabo não posso ser padre? Se calhar acha que não há padres que são autênticos diabos — a criatura riu-se com gosto.
— Sei que há de tudo, afinal de contas, os padres são homens. Com uma certa vocação, é certo, mas são homens.
— Ora aí está. Tal como a sociedade, que às vezes demoniza os padres sem razão, também há padres que são perfeitos diabos, sem que sejam vistos dessa forma.
Entendi a que o diabo se referia. Decerto que era sobre as questões de acusações de pedofilia de alguns padres mas se começarmos a falar disso agora nunca mais resolvo a minha grande dúvida.
— Essa conversa, apesar de interessante, levar-nos-ia para longe da questão central, que é a sua razão de ser padre — em jeito de pôr a conversa no caminho de me esclarecer essa dúvida que me picava.
Começava a ver um diabo a perder a paciência. Seria isso possível? Talvez.
Seja como for, tive resposta.
— Parece-lhe então que essa conversa interessante não está ligada com esta questão, mas está no centro de tudo.
A minha expressão deve ter demonstrado a maior das interrogações, porque a criatura continuou o seu raciocínio.
— Já reparou, nessas últimas cheias, descarrilamentos ou até mesmo, black outs de algumas cidades? São obras da nossa comunidade que faz um trabalho constante e sem descanso.
Até aqui era como a confirmação de algo que não havia pensado mas que me parecia lógico.
— Que seria do mundo sem nós? Acha mesmo que o que os humanos querem é paz e tranquilidade? Amor, se calhar? Balelas. Assim como a liberdade, também tal idílico não é um estado natural do homem.
Essa não. Não me faltava mais nada. Temos um diabo filósofo, pensei eu. E que mais poderá sair daqui? E o diabo continuou.
— Há quem tenha essa ideia de paz, amor e tranquilidade como objetivo de vida? Há, pois, e estarão tranquilos até que se enfadem com a vida que levam e se metam com a mulher do vizinho, ou venha primo ou amigo sentar-se ao seu lado e cobiçar o que não é seu, mas que para si quer. Então o que acontece? O homem pacífico terá de se defender. Terminou a paz? Já havia terminado quando começou a inveja e o homem pacífico teve de se defender.
As variações de humor, fácies e carga emocional que esta entidade projetava jamais presenciei. E, pelo que se via não tinha terminado, continuou.
— O que é que a nossa comunidade tem a ver com isso? Nada! Tudo aconteceu sem a nossa intervenção.
O diabo fixou-me o olhar, como que esperando uma resposta que não deu tempo de acontecer, e continuou.
— Quando um conjunto de padres faz um excelente trabalho e um de nós intervém para perturbar e criar todo o mal que conseguimos, o que faz a sociedade?
Percebi que era uma pergunta retórica e deixei a criatura continuar o seu discurso.
— A sociedade acusa toda a comunidade de padres pelo mal de um punhado deles. Não importa à sociedade que a árvore tenha produzido mil boas maçãs, pois fixam-se em meia dúzia de frutas podres para justificar o corte da árvore. Teremos sido nós os autores desse mal? Como vê, é irrelevante.
Caramba, esta é a sociedade a que pertenço. Pergunto-me em que circunstâncias eu atuo assim?
— Não lhe consigo contrariar. — respondi um tanto confrangido.
— Claro que não. E se acha que é um “privilégio” que a sociedade tem reservado aos padres ou membros da Igreja, desengane-se, porque a sociedade pode ser tão cretina que até aos animais aplica a mesma fórmula mentecapta.
— Agora perdi-me.
— Outro dia li a mais absurda e hilariante de todas as histórias. Aparentemente, num país escandinavo, uma foca, ou animal parecido, começou a ir tomar banhos de sol perto dos humanos. Tudo parecia bem, tudo engraçado e toda a gente tirava fotografias. Tudo bem, até que alguém achou que era boa ideia aproximar-se do animal para fazer uma selfie mesmo juntinho ao bicho. Claro está que o animal se sentiu ameaçado e respondeu correspondentemente, ferindo a pessoa. Conclusão: o animal foi abatido porque constituía um perigo para a sociedade. Ainda pensámos que nessa decisão teria havido influência de algum dos nossos membros, mas depois vimos que não, os humanos já fazem coisas destas sozinhos.
Nunca tinha pensado nisso e a vergonha alheia que senti deixou-me muito desconfortável.
— Não sei o que dizer.
— Agora pensará que os irmãos da nossa comunidade, os que têm a missão de serem padres, serão os que fazem as patifarias que se contam dos padres. Será verdade? Às vezes sim, não nego, mas cada vez menos, e não porque não queiramos, mas porque os humanos nos antecipam.
O que seria que ele quereria dizer com isso?
Ao ouvir estas ideias expostas desta maneira, devo ter tido uma expressão involuntária, que teve eco no meu comparsa de diálogo.
— Caro amigo, a sua admiração e ar de indignação querem esconder a sua convicção de usufruir de alguma superioridade moral que não tem razão de existir. Para além disso é errado pensar que o bem é superior ao mal.
O quê? Não podia deixar passar essa barbaridade.
— Calma! Com essa frase condensou uma série de “inverdades” de uma só vez. – Havia que parar esse chorrilho de disparates que o vermelho dizia por isso disse com mais energia.
Mas o diabo, não se intimidando, capaz das mais amplas mudanças de humor repentinas e, talvez por me sentir incomodado, voltou a ficar muito divertido e soltou uma profunda gargalhada.
Ele sentado no banco e eu ainda de pé, bateu-me nas pernas, convidando-me a sentar.
— Sente-se, homem, não paga mais por isso e não venha com essa história de que não pode porque está com pressa, porque é mentira.
Sentei-me, percebendo que a minha curiosidade era muito superior ao meu desdém.
Olhando nos olhos e menos intimidado do que antes estava, havia que pôr alguns pontos nos “is”.
— Vamos por partes. Creio que a minha indignação tem toda a razão de existir, porque não concordo com a necessidade da existência do “mal”, mesmo que em abstrato. E isso dá-me algum ar de superioridade? Não sei, mas admito essa possibilidade e, se isso acontece, creio que me é devido, porque me vejo, em geral, como uma pessoa boa e não conheço provas em contrário. Terei os meus defeitos, é certo, mas sou uma pessoa boa no geral.
Tive que pôr de lado essa coisa de não falar bem em causa própria porque aqui foi necessário puxar de todos os pergaminhos.
— Pois, aí reside um engano ou um jogo de gato e rato que compensa explorar. Entre ser uma pessoa má ou uma pessoa capaz de fazer coisas más, como diz o povo, venha o diabo e escolha. — disse o próprio diabo.
— Porque diz isso? Está a colocar-me no seu clube? — este diabo, seguramente pela sua natureza, mostrava a capacidade de me manter sempre à beira da indignação.
Ajeitando-se no banco e após uma pausa professoral, também ele puxou de uma cartada de sabedoria antiga.
— Meu caro, é sabido que há um lado obscuro em cada pessoa. Sobre essa parte não restam dúvidas e em si não mora a exceção. O que falta saber é o que é necessário para que essa faceta se revele e com que intensidade isso acontecerá. E outra coisa sobre a qual podemos concordar é que nada aparece do nada, como por geração espontânea. Se esse lado negro aparece, é porque esteve a incubar, à espera de um dia se revelar.
O danado disse isto enquanto acalmava a sua cauda que antes se movia como uma entidade autónoma e que agora se juntava à força do seu olhar de esguelha que compunha um trio sinistro com o seu sorriso. E, quase sem pausa, continuou.
— Sem termos de procurar muito, encontraremos, entre os humanos, as mais diversas posições, ou reações, face a esse lado obscuro. Há quem se admire muito com essa revelação, há quem o adote como algo interessante para o futuro, mas há também, como parece ser o seu caso, quem o queira negar, mesmo que isso seja completamente irrelevante.
Senti-me um bocado encurralado num tema inédito para mim face a alguém que deve ter o assunto claro desde o início dos tempos.
— Não é uma questão de negar, mas também não é uma aceitação.
— Ahahahahah! Então o que é? — Como será que eu tenho a capacidade de fazer um diabo rir? Será a minha própria defesa assim tão débil?
— É, paradoxalmente, algo indefinido.
— Esse seu “algo indefinido” seria imperdoável se o mundo percebesse que vinha de um diabo. Seríamos despachados desta para melhor. — Quando ouvi isto, percebi que até aos diabos dói a injustiça.
— Não me venha com histórias dizendo que vocês são vítimas. Isso não é verdade. — disse-lhe com o vigor que me restava.
— Não necessito de mentiras. A verdade, por si só, já é cruel para todos, tanto para si como para nós.
— A forma como o mundo se encaminha para o mal deve deixar-vos em êxtase. Não me parece uma verdade cruel para vocês. Tal como não vejo que eu ser uma pessoa boa possa ser uma verdade cruel para mim.
Pensei que com este argumento tinha encurralado alguém com contra-argumentos para tudo. E, por breves momentos, senti-me orgulhoso de mim mesmo.
— Então pense no seguinte: agora que consegue ver-me na minha forma original, e não sei quanto tempo irá durar essa sua capacidade, será que um dia destes não verá um diabo quando se olhar ao espelho? O que acha que é esse seu dark side of the moon? Essa será uma verdade cruel para si.
— Epáhhh… — Senti-me apanhado na curva e o diabo ainda não tinha terminado.
— Calma, deixe-me continuar. Por outro lado, o mal está de tal forma espalhado no mundo, tão disseminado, que nós, diabos, nos questionamos sobre o propósito da nossa missão e é aí que voltamos à questão inicial, que o fez abordar-me.
O riso e a cara de patife davam lugar à arrastada melancolia que inicialmente presenciei na criatura demoníaca.
Um automático acelerar da pulsação, conjugada com o meu involuntário agarrar do braço do banco, indicaram-me que tinha sido invadido por um agudo estado de alerta.
— Volto a reparar que regressou ao seu estado de melancolia inicial, o que me deixa agora mais confuso do que nunca. Quando o vi, li em si uma profunda tristeza. Agora, após esta pequena conversa, e sendo claro que o mal grassa no mundo, achava que isso seria motivo para a sua alegria. Ainda assim, sinto-o nesse estado miserável.
— Bom, vejo que não compreende a nossa missão, que é criar o caos, o mal. — disse-me o diabo como que a sublinhar o óbvio.
— Mas é isso que existe em abundância e isso deveria ser a felicidade da sua comunidade. — confuso e sem conseguir entender o sentido da afirmação, para além do óbvio, ainda assim sabia que haveria de haver algo que me estava a escapar.
— Citando um camarada “É acertado, mas é errado”. Errado e é por isso que eu e os outros nos fizemos padres e propagamos os mais profundos ensinamentos da Igreja: o bem. Com o mundo como está, é cada vez mais difícil encontrar almas inocentes para corromper. Daí que o nosso trabalho seja hoje, ao contrário do que acontecia antes, o de contribuir para o bem, porque sem tal instituição nada faz sentido, nem a existência do mal.
Surpreso, algo desorientado e profundamente abalado pelo lúcido contrassenso, não sabia se havia de proceder ao cliché de desejar um bom fim de semana à criatura e ir-me embora, ou se lhe desejar tal coisa seria inapropriado.
Não querendo dar razão ao nefasto, não conseguia deixar de lhe encontrar algum mérito.
Porém, sucumbir a tal pessimismo não está na minha natureza, tal como em mim não se encontrará a ingenuidade de ver somente o bem na Humanidade.
Fazendo tábua rasa do meu mais profundo sentido de educação, decidi virar costas à criatura e seguir o meu caminho acreditando que tenho muito sobre que pensar.
Quanto aos muitos pontos que aqui ficaram em aberto, não tive, nem tenho, coragem de os desenvolver nesse momento.
Porém, fico sem saber lidar com a sensação de que a voz da criatura, de alguma forma, se assemelha à minha. Espero estar errado porque só essa dúvida enoja-me e envergonha-me.
Tal como o nosso lado obscuro, esses pontos em aberto ficarão a incubar, à espera de um melhor dia para se revelarem.
Retomo o meu caminho para o café e atravesso a rua.
Ao subir para o passeio, à minha frente a grande montra do banco faz de espelho. O meu coração quase saltou fora. Ao ver o reflexo, por um segundo, juraria que me cheirou a enxofre.
David Monteiro
Nota: “É acertado, mas é errado” ver em Enganar o Diabo, de Napoleon Hill
NOTA: a imagem deste texto foi criada com recurso a IA