Sweet e a morte de um sorriso
Nas caves de Vinho do Porto, Sweet seduz sem esforço. Alguém não gosta.
Numa das antigas caves de Vinho do Porto em Vila Nova de Gaia, uma figura masculina — tatuagens no pescoço semiescondidas pela gola alta, bigode abundante, casaco de cabedal estilo aviador — destacava-se do grupo em que se encontrava.
Eu encaminhava o meu grupo para a sala de provas quando o seu grupo o seguiu e foram-se sentando, ocupando ele o lugar deixado por um par de raparigas entusiasmadas.
O homem sentou-se e, passados uns segundos, agarrou um dos cálices alinhados — deixando ver tatuagens que da mão progrediam para o braço, desaparecendo sob o casaco.
Havia burburinho na sala, mas sobressaiu a voz quente do homem estrela e, por momentos, perdi a concentração nos clientes que me acompanhavam.
O olhar demorava-se no pestanejar e as palavras lentas fluíam sólidas e certeiras.
Vi-o esperar pelo momento exato de falar para então ter a completa atenção da sua audiência.
Levantou-se, começou a explicar as várias categorias do vinho generoso e o silêncio tomou conta do grupo enquanto as mulheres ajeitaram as cadeiras na sua direção.
O lugar que ocupava iluminou-se sem terem ligado as luzes e os risinhos de um par de jovenzinhas sublinharam a certeza, se dúvidas houvesse.
Talvez seja essa a faísca das paixões e dos ódios. Deve ter sido também por isso que ele me pareceu alguém de quem eu podia ser amigo. Mas sei lá eu? Não o conheço de parte alguma.
Sweet, ouvi quem assim o chamasse. Viajei para imagens de um qualquer filme a preto e branco. Até me pareceu ver o Humphrey Bogart.
Esta personagem envergava uma indumentária vintage que, até ao mais subtil detalhe, fazia com que a sua pessoa e o seu look jogassem em perfeita sincronia.
De entre os elementos do grupo, a minha antena masculina detetou uma mulher de lábios carnudos marcados por batom carmim hipnotizante — o seu andar não deixava a sala indiferente, e o olhar fixado em Sweet falava mais alto que qualquer explicação que ele pudesse estar a dar.
No grupo de Sweet saltavam sorrisos, amenas conversas e suaves picardias.
Mas nem tudo me pareceu bem no Reino da Dinamarca. Um dos homens, de ombros tensos e antebraços cujos músculos latejavam, era a exceção à regra.
O braço direito a envolver as costas da mulher dava continuidade ao olhar que ele carregava sobre Sweet. Do homem estrela não vi um pestanejar sequer.
A certa altura, levantei-me sem memória do que ia fazer. Um movimento repentino do dito homem monopolizou a minha atenção.
Uma rápida pressão do braço do homem tenso matou à nascença o mais bonito sorriso desse dia.
A intenção? Claríssima.
O resultado? Inglório.
Se Sweet percebeu, não sei, nada demonstrou. Mas, elegantemente, terminou a frase, deixando um vazio tão incómodo como um mar turbulento onde ele parecia ser mestre em navegar.
David Monteiro