Dependência

Num mosteiro medieval, um aprendiz impaciente descobre que a verdadeira riqueza se mede pela compaixão e pela arte de saber depender.

Com os punhos cerrados e as têmporas a latejar, o aprendiz olhava intrigado para o Cellarius, enquanto este, pacientemente, atendia cada uma das muitas pessoas de uma longa fila.
Por que raio é que ele faz isso? Que perda de tempo! Está ali desde a seguir às laudes —  repetia mentalmente o aprendiz.
Algumas caras eram-lhe conhecidas. Estavam lá o Sr. António, o Sr. Bernardes e o Sr. Alcides dos laranjais, a D. Amélia das hortas da Charneca, os Fonseca que têm aquelas terras ao lado do mosteiro, e outros de quem não se lembrava o nome.
De vez em quando, um dos monges saía do refeitório, cruzava o claustro trazendo uma vasilha de barro e ali enchia o copo do Cellarius com água fresca. Ele agradecia com um sorriso e continuava o que estava a fazer.
Na fila, havia quem esperasse horas até ser atendido.
E o Cellarius ali está. P’ra quê Senhor? P’ra quê? Ele não tem nenhuma necessidade disso — continuava o aprendiz dando voltas à cabeça sem qualquer resultado palpável.
O aprendiz ia às suas tarefas, tinha de arrumar o parlatório, mas de tempos a tempos voltava.  Conforme observava a lenta fila, levantava ambos os braços a meia-altura e deixava-os cair com uma sonora palmada nas pernas.
Notava que só algumas pessoas tinham avançado, mas a fila mantinha-se igualmente longa porque, entretanto, chegavam mais aldeões.
Cada um que era atendido deixava algo. Alguns deixavam umas moedas, outros galinhas ou ovos, também havia couves, pequenas pipas de vinho, ou apenas lágrimas e lamentos.
Um a um, o Cellarius ouvia com infinita candura. Alternando entre um sorriso franco e um ar de sincera consternação, terminava as conversas com um forte abraço.
O aprendiz sabia que as rendas dos terrenos, das oficinas ou dos lugares no mercado, eram entregues ao irmão Abel, que as recebia pela porta norte, uma entrada discreta, abrigada do vento e dos olhares curiosos.
— Então, e estas? O que fazem estas pessoas aqui? — o aprendiz estava perdido nos seus pensamentos.
O irmão Abel, converso, passou por ali numa pausa às suas tarefas e observou o vai e vem do rapaz. O aprendiz parava por momentos, olhar fixo na fila de gente, como se falasse sozinho.
Um tanto engasgado pelo sorriso contido, explicou-lhe.
— São as pessoas que não conseguiram pagar a renda… As pessoas de bem fazem questão de vir falar com o Cellarius e explicar os seus motivos. Cada um traz-lhe uma lembrança… o que puder…
Sem lhe dar tempo para fazer uma das suas mil perguntas, o irmão Abel seguiu o seu caminho em direção à porta norte.
De vez em quando, alguém saía da fila para ir à privada e voltava. Era o único acontecimento extraordinário naquela lenta fila.
Chegada a hora do almoço, o Cellarius levantou-se, aproximou-se das primeiras pessoas da fila e convidou todos a dirigirem-se à zona do refeitório para recolherem algo para comer. A missa que antecedia a refeição estava aberta a todos e, no refeitório, estaria uma zona preparada para quem viesse de fora.
Também ele ia almoçar com os irmãos e regressaria mais tarde.
O aprendiz, que morria de fome desde que terminara o pequeno-almoço, lembrava-se da expressão que lhe havia sido repetida ad nauseambarriga de moço não tem osso.
Começou a correr para o refeitório, mas deteve-se pouco antes de lá chegar. Sabia que receberia um olhar reprovador dos irmãos se lá aparecesse a toda brida… mais uma vez.
A fila para entrar no refeitório era habitual, mas esta o aprendiz conhecia bem e achava-a muito engraçada.
Para entrar na sala de refeições, os monges tinham de passar por uma porta alta, mas muito estreita. Chamavam-lhe a Porta Pega-Gordo.
A dificuldade em passar por ela alertava o irmão em questão de que andava a comer em demasia e, por isso, a sua porção era reduzida durante uma semana, até conseguir passar normalmente.
O aprendiz prestava muita atenção aos monges que, com dificuldade de passar, resmungavam com os sorrisos dos irmãos menos rechonchudos. Era muito divertido.
Depois da refeição e antes de retomar as tarefas da tarde, o aprendiz sentou-se junto do Cellarius, durante o tempo de descanso.
— Cellarius, aquelas pessoas que estava a atender são as que não conseguem pagar a renda?
— Sim, meu filho — respondeu o Cellarius — bons trabalhadores e tementes a Deus, mas que só conseguirão pagar mais tarde.
— Mas Cellarius, alguns não conseguirão pagar tão depressa… se é que o conseguirão pagar de todo. Sei que os laranjais estão com bicho. Nunca vão conseguir resolver o problema.
O aprendiz, genuinamente preocupado, olhava para o Cellarius, que se encostava à tília do claustro, observando as folhas que começavam a perder a intensidade do verde.
Sem resposta imediata, o moço olhava para os lados tentando pensar se algo mais estaria a distrair o Cellarius cuja cabeça parecia não estar ali.
— Infelizmente é assim mesmo. Misteriosos são os caminhos do Senhor. Os laranjais estão a passar um mau bocado. Vai levar tempo. Há que ter piedade e ajudar essa gente.
O Cellarius falava sem desviar o olhar, como se já tivesse identificado as melhores folhas a colher.
Sentindo o tempo a passar e sem conseguir ter nenhuma resposta conclusiva, o aprendiz imprimia leves balanços no insensível banco de pedra.
— Mas então… cada pessoa daquela fila tem um problema e não consegue pagar. Isso quer dizer que o mosteiro também não consegue receber… e então todos temos problemas.
O Cellarius sorriu.
— Louvado seja o Senhor, o teu tempo aqui tem sido útil. Estás a começar a pensar. Tens toda a razão.
O Cellarius levantou-se e alargou o bolso do seu hábito, preparando-se para colher as folhas mais bonitas.
— Então, Cellarius? Isso não o preocupa?
O aprendiz levantou-se também e, encolhendo os ombros, insistiu na pergunta com um misto de dúvida e indignação.
— Eu não compreendo. As terras são do mosteiro, temos uma centena de irmãos que, para além de rezarem, ensinam técnicas aos rendeiros e artífices… mas estamos dependentes das rendas?
O Cellarius parou de apanhar folhas, chamou um irmão que passava no claustro e pediu que servisse algo adicional às pessoas da fila e lhes pedisse desculpa pela demora. Feito isto, continuou a inspecionar as folhas da árvore.
— Excelente raciocínio. Parabéns. Podíamos ser autossuficientes. Temos as terras, o conhecimento e a mão de obra — confirmava o Cellarius movendo lentamente a cabeça para cima e para baixo.
O aprendiz, inchado de alegria, sorriu. Será que tinha descoberto algo que escapara ao Cellarius?
O Cellarius voltou a parar o que estava a fazer e, ainda com a mão no ar e o indicador esticado, voltou-se para o aprendiz.
— Mas… teríamos o amor da população? Estaríamos nós a fazer a obra do Senhor?
O Cellarius pegou nas mãos do rapaz.
— O amor é tudo. O Senhor ensina-nos que o pecado é a falta de amor. E sem amor não conseguimos viver.
O aprendiz já sabia que, quando o Cellarius começava a falar assim, vinha dali sermão.
O Cellarius, que já tinha dado muitas voltas ao sol, conhecia bem aquele olhar, o mesmo que já vira em muitos outros aprendizes, todos a fazer, mais cedo ou mais tarde, as mesmas perguntas. Era um excelente sinal.
— Somos todos filhos do Senhor. Se nos isolarmos, bastará um fogo ou outra calamidade para darmos conta do erro.
Onde iria o Cellarius com essa conversa? Era sempre assim, o Cellarius começava a falar e dava umas voltas enormes até concluir seja lá o que fosse.
— Nessa altura, desejaríamos ter sido misericordiosos nos tempos difíceis — disse o Cellarius, os olhos muito abertos e o dedo indicador ainda no ar.
O Cellarius fez a sua pausa habitual dando tempo para que as suas palavras fossem digeridas.
O aprendiz, por sua vez, mais atento não podia estar, com o seu olhar de página branca, permaneceu imóvel enquanto os seus olhos pareciam procurar laranjas num armazém vazio.
Perante a imobilidade do aprendiz, o Cellarius continuou.
— Podemos também ver isto de outra forma: ao arrendarmos as terras com rendas justas, permitimos que outras famílias prosperem. Ao afastarem-se da pobreza, melhoramos todos. Ninguém pode ser verdadeiramente autossuficiente. Somos uma grande família, dependentes do que nos rodeia. Mas podemos escolher de quem dependemos.
O Cellarius sentou-se ao lado do aprendiz, agarrou-lhe nos dois braços e, rodando o seu corpo e o do aprendiz, ficaram face a face.
— Tu, agora, dependes de nós. Mas um dia, o futuro do mosteiro poderá depender de ti. O Sr. Alcides depende do laranjal, que lhe dá de comer. Mas o laranjal depende do Sr. Alcides, que há de encontrar a cura para a doença das laranjas.
Levantando-se, o Cellarius preparava-se para regressar às suas tarefas. Lançou mais um olhar ao aprendiz para se certificar de que o moço estava satisfeito. Mas, pela sua cara, adivinhou nova pergunta.
— Cellarius, não acha humilhante que quem não pode pagar seja visto por todos? Ninguém vê os que conseguem pagar… — era tão óbvio o que dizia que o aprendiz não percebia por que razão o Cellarius não o via.
Será que, desta vez, o Cellarius não teria resposta?
— Caro aprendiz, quem não pode pagar e vem até nós confessar essa dificuldade, merece toda a nossa misericórdia. Além disso, uma das maiores dificuldades de quem é honesto, e não consegue pagar, é justamente dar a cara. Ao fazê-lo diante de todos, está a dizer: «sou uma pessoa de bem».— disse o Cellarius.
— Pois, compreendo. Mas então por que razão os outros pagam às escondidas? — a pobre cabeça do aprendiz estava a dar mais voltas que a nora no inverno.
Algumas pessoas que anteriormente estavam na fila passaram pelo Cellarius, que as voltou a cumprimentar e acenou dizendo que já lá iria ter com elas.
— Se pagarem à vista de todos, as suas casas podem tornar-se alvo de cobiça — respondeu-lhe o Cellarius.
— Mas Cellarius… quem tem dinheiro faz casas grandes, chamativas. Parece que não precisam de proteção. E há os que devem… e não aparecem.
Já a afastar-se, o Cellarius respondeu, sem se voltar, com um sorriso tranquilo como aquele que só os muitos anos de vida nos dão:
— O irmão Frederico ensina o ofício de sapateiro com todo o amor e conhecimento. Se os seus aprendizes fizerem depois bons sapatos ou pouparem nas peles, já não é responsabilidade dele. Mas o irmão Frederico, sempre que vai ao mercado, dá um abraço ao sapateiro menos sério e mostra-lhe onde pode comprar peles melhores. A escolha será sempre do sapateiro.

David Monteiro

Nota: a imagem para este texto foi produzida por IA

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