Perguntei ao vento

Sentado num cume, entre o frio e o silêncio, percebi que o vento não responde. Apenas escuta.

Olhei o horizonte em busca de respostas para perguntas que não sabia formular.
No turbilhão de palavras que giravam na minha cabeça, apenas os repetidos porquês surgiam com nitidez.
Assim começavam inúmeras interrogações, mas nenhuma parecia terminar num pensamento com sentido.
As palavras, no seu trajeto frenético e desesperado rumo ao mundo real, entupiam a saída e amontoavam-se numa massa amorfa e indecifrável.
Porquê, porquê… porquê?
Sentado num implacável bloco de granito, o frio ia-se entranhando no corpo numa cadência previsível e, com ele, o cansaço começava a tomar conta de mim.
Enquanto o olhar permanecia cativo do horizonte, senti a pulsação abrandar.
Os porquês pareciam acalmar, exigindo menos de mim.
Nesse sossego, julguei ouvir o sussurro da brisa que costuma anunciar a nortada. Trará respostas?
Claro que não. O vento é apenas vento e não responde a perguntas que ainda não sabemos fazer.
Fiquei ali mais um pouco, de rabo gelado, a contemplar a sucessão de cumes que, aos poucos, se dissolvem na distância.
Com o soar de um trovão, a vastidão preenche-me e, com os seus braços fortes, serena as angústias que me consumiam. As vozes na minha cabeça encontram o seu lugar.
Suavemente, as interrogações começam a arrastar consigo outras palavras. Pouco a pouco, de forma ordenada, formam-se frases.
Os cumes continuam no mesmo lugar, como sempre estiveram. Nada parece ter mudado.
Talvez agora, simplesmente, esteja mais livre para escutar as respostas que o vento traz.

David Monteiro

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