Livros e livrarias
Entrar numa livraria é sonhar um caminho que nunca segui, e questionar porquê.hos paralelos.
Livros encantam-me e inquietam-me.
Entrar numa livraria é mergulhar num universo que me faz sonhar caminhos paralelos. Inevitavelmente, começo a admirar os muitos livros empilhados ou cuidadosamente organizados nas prateleiras e o impulso de os levar todos para casa quase leva a melhor.
Sinto uma atração tão grande por esse mundo que chego a pôr em causa as minhas escolhas de vida profissional.
Será que seria mais feliz se tivesse escolhido um caminho ligado aos livros?
É uma pergunta que atualmente surge com naturalidade, mas que, a certa altura, nem pensar nisso fazia sentido.
Ainda assim, para que hoje estivesse nesse caminho, teria sido necessário que, há muitos anos, as minhas escolhas tivessem recaído nessa direção, o que não aconteceu.
É um mundo que, até hoje, sempre me fascinou.
Lembro-me do enorme prazer, em criança e jovem, que entrar em livrarias me proporcionava. Ficava encantado com algo que mantém esse efeito de deslumbramento até hoje: o cheiro dos livros.
Em criança, nem sequer pensava como possível que, algum dia, eu pudesse ser alguém que escrevesse livros. Essas pessoas eram como seres extraordinários que gravitavam num espaço onde habitavam deuses.
Já durante a minha juventude considerava que quem quer que escrevesse livros era quem se elevava muito acima do comum dos mortais.
Como eu poderia um dia ser escritor se, até os meus professores, que eu considerava em plano tão destacado, aprendiam com os livros? Quem os escrevia só podia estar ainda mais acima.
Sem que eu desse conta, num caminho quase paralelo, seguia o português.
Só no oitavo ano consciencializei-me da importância da língua portuguesa e do quanto longe eu estava de a usar com mestria para os padrões da minha idade de então.
Devo ao meu professor de então, João Nogueira da Costa, que com o seu carinho e profissionalismo dedicou-se a corrigir os meus testes e neles incorporar notas manuais e recortes de cópias da gramática onde estavam exemplos e indicações de como eu deveria ter respondido às suas perguntas.
Para além de perceber o quanto fraca era a minha capacidade de comunicar, também percebi que havia forma de corrigir, mesmo que levasse muito tempo.
Sem escusar a minha responsabilidade, o facto de estar inserido num contexto familiar pouco dado à leitura e com jeitos de linguagem próprios de quem vinha de Cabo Verde nos finais dos anos sessenta, pode explicar o ponto de evolução na língua portuguesa em que me encontrava na altura.
Mais tarde, as minhas escolhas académicas e profissionais não se dirigiram no sentido em que a mestria da língua portuguesa fosse chave de sucesso.
Assim sendo, só agora, numa fase mais tranquila da minha vida, aproximo-me dessas matérias.
Há mesmo pouco tempo, no contexto da segunda metade da minha vida, que comecei a ter a noção que esse mundo dos livros também podia ser o meu. Afinal, esses seres não são deuses, mas mortais que se dedicaram fazer um certo caminho.
A minha vida esteve sempre tão distante dessa realidade que considerar que na altura podia ter sido uma possibilidade, é forçado ou até ingénuo.
Claro que nunca o saberei, mas a sensação de que essa possibilidade possa ter existido é tão forte que me leva a questionar as razões que me impediram de a seguir.
Sem respostas concretas e com a imaginação sempre a fluir, desdobro-me em cenários alternativos que não concluem em respostas.