Jantar de despedida
Um jantar que é uma despedida. Uma semana de vida partilhada encerrada com a solenidade que merece.
Armados de sorrisos contidos e olhar curioso, um a um vão entrando na sala elegantemente decorada. Espera-lhes um batalhão de copos esguios e ordenados, pratos grandes e finos, guardanapos de linho egípcio e talheres pesados, dispostos com uma precisão excessiva.
Este não será só mais um jantar, será o momento que marcará o final da viagem.
A iluminação da sala, calculada ao milímetro, permite-nos ver os móveis clássicos que nos rodeiam, dificultando que detalhes irrelevantes ganhem destaque.
A sala, onde o crepitar da lenha a arder na imensa lareira e os aromas de sândalo definem o ambiente, recebe os viajantes que vão escolhendo os seus lugares na pesada mesa de tampo de carvalho onde repousa um manto de linho bordado.
Não muito afastada desse tampo onde o mise en place é rei, uma pequena mesa-redonda, cuja longa toalha bordada cobre as pernas, está coroada de flûtes de espumante rosé que se destaca pela minuciosa iluminação.
Pensando no jantar que terá vinhos imperdíveis, sirvo-me de um copo de água de entre os vários que também ali estão, cuidadosamente decorados com morangos e folhas de hortelã.
O grupo ondeia nesse sentido e, em menos de nada, os copos andam pela sala juntando-se em pequenos grupos sorridentes.
O meu olhar volta a repousar na mesa principal.
As ínfimas irregularidades nas distâncias entre talheres e pratos dão alguma humanidade a essa perfeição e a presença simultânea de empregados que terminam a decoração cria um ambiente que descontrai e une os convivas.
Perto da lareira e com um sorriso de cumplicidade, a Chefe de Sala, que já me conhece há alguns anos, responde-me num só olhar às minhas repetidas perguntas que não cheguei a fazer: «Sim, vi as restrições alimentares e está tudo controlado.»
Não me canso de ver esta mesa decorada e espero nunca me habituar. Seria triste deixar de me surpreender e de me maravilhar.
Volto a contar os presentes que pairam sobre conversas ligeiras e, a esta altura da viagem, não me espantam as ausências de quem sempre falta à hora marcada.
De entre tantos distraídos, também há quem já antecipe o meu comportamento de tão previsível. Apanha-me a olhar para o relógio e a contar convidados.
— Always the same one — diz-me Douglas, um cliente do Texas a quem só posso sorrir, sem confirmar nem desmentir, mas tem razão, são sempre os mesmos.
Recebo esse atraso como uma oportunidade de apreciar o grupo no seu conjunto.
O preto domina entre os convivas. De uma mala com quantidade limitada de roupa, cada um escolheu a combinação de peças que lhe fará mais janota no jantar.
Tomo isso como uma forma de honrar o momento e os companheiros de jornada.
As conversas fluíram para as caminhadas que partilharam, pelas paisagens do Vale do Douro, para os vinhos que desconheciam e para as larachas dos guias mais animados.
Foi uma semana de vida partilhada.
Destes jantares, fica-me sempre uma memória indelével. Não importa em quantos já participei.
Não me recordo de todos de forma espontânea. É então que as fotografias funcionam como luzes que se acendem num quarto escuro e que imediatamente me fazem recordar as conversas e os sorrisos.
A Chefe de Sala lança-me um olhar que reconheço e, de imediato, correspondo às suas intenções: basta um simples dinner please aqui e ali para que a alegria se desloque até à mesa.
O jantar começa em tom de Allegro: as entradas com a sua delicadeza e frescura canalizam as atenções que antes voavam pela sala, estes pequenos pratos marcam o ritmo.
Noto que nesse momento a iluminação da sala quase só nos permite ver a mesa e o alegre grupo. Dos móveis já só restam pequenos reflexos das luzes do jantar nos puxadores metálicos.
Entretanto, uma perturbação desta harmonia marca a chegada do cliente atrasado que vai ocupar a única cadeira disponível.
Ainda antes de se ter sentado, parece-me ver nele uma expressão de admiração, mas a penumbra não me deixa ter a certeza.
Douglas pisca-me o olho, e talvez mais ninguém tenha reparado.
Enquanto isso, a harmonização dos vinhos tem sabor a contraponto.
A pausada explicação dos vinhos que irão ser servidos capta todas as atenções e, por breves momentos, só se ouve a Chefe de Sala nesse labor.
Quando aparece com um decanter quase da sua altura, as exclamações soam em uníssono.
O Adágio é revelado no prato principal quando as interjeições são substituídas por olhares mais abertos ou fotografias dos pratos e companheiros de viagem.
Finalmente, a refeição completa-se no Largo com a sobremesa.
Um candelabro, onde três velas pingam sobre a cera de todas as que ali arderam durante anos, ilumina uma zona antes escura, perto da lareira, onde os manjares estão expostos numa mesa de pé de galo.
Há babá de laranja, bavaroise de frutos vermelhos, várias frutas laminadas e algo mais que a minha memória preferiu esquecer.
Este encerramento traz um misto de culpa e prazer indispensável.
A noite desliza entre os ponteiros do relógio sem hora de terminar.
Mas, tal como a criança feliz que resiste a adormecer, também o fim é previsível.
Laura, uma cliente do Wyoming que não era de caminhadas, vem ter comigo.
— I will miss you. Lovely dinner, lovely dinner… — diz-me baixinho.
Um a um, ou em pequenos grupos, vão regressando aos seus quartos até que só restamos eu e a Chefe de Sala.
Acendem-se todas as luzes e vejo os detalhes que antes não entravam em cena.
— Já não o vejo amanhã, pois não? — diz-me a Chefe de Sala.
Retribuo com um abraço.
Regresso ao meu quarto com um peso e uma leveza que se confundem.
No caminho ainda vejo apagarem-se as luzes da sala.
Finale.
David Monteiro