Jantar de despedida​

Um jantar que é uma despedida. Uma semana de vida partilhada encerrada com a solenidade que merece.

Armados de sorrisos contidos e olhar curioso, um a um vão entrando na sala elegantemente decorada. Espera-lhes um batalhão de copos esguios e ordenados, pratos grandes e finos, guardanapos de linho egípcio e talheres pesados, dispostos com uma precisão excessiva.
Este não será só mais um jantar; será o momento que marcará o final de uma viagem juntos.
A sala, à meia-luz, plena de aromas de sândalo que se misturavam com o crepitar da lenha, recebia os viajantes que iam escolhendo os seus lugares na pesada mesa de tampo de carvalho onde repousava um manto de linho bordado.
As ínfimas irregularidades nas distâncias entre talheres e pratos davam alguma humanidade a essa perfeição. A presença simultânea de empregados que terminavam a decoração criava um ambiente que descontraía e unia os convivas.
Com um sorriso de cumplicidade, a Chefe de Sala, que já me conhece há alguns anos, responde-me num só olhar às minhas repetidas perguntas: «Sim, vi as restrições alimentares e está tudo controlado.»
Não me canso de ver estas mesas decoradas e espero nunca habituar-me, nunca deixar de me surpreender nem de me maravilhar.
Volto a contar os presentes que já se entretêm com conversas ligeiras e, a esta altura da viagem, não me espantam as ausências de quem sempre falta à hora marcada.
Também há quem já antecipe o meu comportamento de tão previsível. Apanha-me a olhar para o relógio e a contar convidados.
 Always the same one, diz-me o cliente a quem só posso sorrir, sem confirmar nem desmentir, mas tem razão, são sempre os mesmos.
Recebo esse atraso como uma oportunidade de apreciar o grupo no seu conjunto.
A cor preta domina entre os comensais. De uma mala com quantidade limitada de roupa, cada um escolheu a combinação de peças que lhe fará mais janota no jantar.
Tomo isso como uma forma de honrar o momento e os companheiros de jornada.
Esse pequeno gesto sensibiliza-me e é cada vez mais valioso num mundo que parece pretender desvalorizar a solenidade de alguns momentos.
As conversas fluíram durante as caminhadas pelas paisagens dramáticas do norte do país, entre garrafas de vinho partilhadas e as larachas dos guias mais animados.
Foi uma semana de vida partilhada. Se o nosso tempo de vida não é importante, o que será?
Para mim fica sempre uma memória indelével, sejam quantos forem os jantares em que participei, e já foram muitos.
Não me recordo de todos de forma espontânea.  É então que as fotografias funcionam como luzes que se acendem num quarto escuro e que imediatamente me fazem recordar as conversas e os sorrisos.
 
O jantar começa em tom de Allegro: as entradas com a sua delicadeza e frescura canalizam as atenções que antes voavam pela sala de móveis clássicos e marcam o ritmo.
A harmonização dos vinhos tem sabor a contraponto, equilibrando a intensidade de algum sabor mais intenso ou preenchendo pequenos silêncios.
O Adágio é revelado no prato principal quando as interjeições são substituídas por olhares mais abertos ou fotografias para um mais tarde recordar.
Finalmente, a refeição completa-se no Presto com a sobremesa. O encerramento que traz um misto de culpa e prazer indispensável.
A noite desliza entre os ponteiros do relógio sem hora de terminar. Tal como o sono de uma criança feliz que resiste a revelar-se, o fim é previsível.
Com o final deste jantar, termino mais uma viagem com a esperança de ter tocado a vida de quem me acompanhou.

David Monteiro

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