Andaimes

Uma reflexão sobre o papel efémero dos andaimes: o suporte essencial que todos admiram, mas que o mundo esquece mal a obra termina.

Acabei de ler um poema sobre andaimes – Scaffolding de Seamus Heaney. Como se no mundo não houvesse assuntos mais importantes, os andaimes são iluminados neste poema à escala de monumentos.

Também entre nós, tal como no poema, os andaimes foram necessários para construir as pontes e os viadutos que nos unem. Por muito importante que o andaime possa ser, e é, das mais diversas formas possíveis, também ele tem um princípio, meio e fim.

Durante a sua vida útil, a grande admiração e atenção são por ele e nele focadas. Nessa altura, quem quer que queira ter uma ideia do que se está, ou vai construir, terá de ver a maquete e usar um pouco de imaginação.

Durante esse tempo, o reino do espanto pertence ao andaime.

Mas a mudança de estatuto é inevitável e agrava-se com o aproximar do final da obra. A necessidade de imaginação dá lugar à mera observação, o monumento está pronto e o andaime começa a ser desmontado.

Aos poucos, os paus, ferros, pranchas e escadas acumulam-se na praça. Paulatinamente, estes itens são carregados num camião e todos desaparecerão ao fundo daquela rua.

Durante os primeiros meses, filas intermináveis de visitantes alinham-se à entrada da nova maravilha.

Mas, do andaime, fundamental para o objetivo final, nem memória.

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