Há qualquer coisa no ar de Dingle que não se consegue explicar, mas que se sente na pele logo que se entra num pub. Lá fora, a chuva e o vento atlântico fazem o que melhor sabem fazer. Cá dentro, o calor não vem só da lareira.
Os músicos chegam como chegam os clientes, sem cerimónia. Sentam-se, afinam os instrumentos entre conversa e gargalhada, e começam. Guitarra, flauta, violino. Não há palco, não há anúncio, não há separação entre quem toca e quem bebe. Os instrumentos é que denunciam quem é quem.
Quando a música arranca a sério, acontece qualquer coisa de difícil explicação. Locais e forasteiros entram em uníssono, como se a melodia fosse uma língua que todos soubessem de cor. A alegria é desmesurada. A dor, quando vem, é funda e partilhada. E depois, sem que ninguém dê ordem, todos se calam ao mesmo tempo para ouvir. Quem deu o sinal? Nunca percebi.
É uma espécie de feitiço que passa pelas mãos dos músicos e alastra pela sala, infetando locais e estrangeiros com a mesma eficácia. Fui resistindo quanto pude. O pouco discernimento que me restou usei-o para fotografar.
No dia seguinte, só com uma dor de cabeça considerável e uma máquina fotográfica cheia de imagens. Algumas prestam. A maioria não. Mas a noite ficou.