Uma fenda profunda no território, uma racha na porta de um palácio, um osso partido ou uma alma despedaçada. Consequências de acontecimentos que deixaram marca visível, palpável, permanente.
É sobre esse resultado que esta coleção se debruça. Não sobre o momento do impacto, mas sobre o que fica: a fenda.
A fenda já existe. O tempo passou. E agora?
Na observação desses vestígios ficam em aberto as questões: concertamos a matéria afetada, repondo-a à sua condição anterior? Ou incorporamos o acontecimento na realidade que se segue, aceitando que algo mudou para sempre? Talvez possamos, em alguns casos, aproveitar a ocasião para melhorar o que era.
Resultado da passagem lenta do tempo ou de um acontecimento abrupto, a fenda conta sempre uma história e abre opções.
Restaurar. Mudar. Incorporar.
Fascinado pelo kintsugi, favoreço esta última opção, tantas vezes utópica.
Em qualquer um dos casos, surpreende-me e desagrada-me a indiferença perante a fenda.
Em qualquer um dos casos, celebro a decisão.