Encontros adiados
Quando Maité morreu, Itziar percebeu o preço dos encontros adiados.
Itziar encostou-se à vedação de madeira que delimitava o Parque de Plaiaundi. A imagem de Maité ressoava dentro de si como os danborrariak de Donostia.
No meio dessa confusão mental e um mal-estar intestino, uma dor sobressaía de entre as demais: “terminou, acabou, foi o fim”.
À sua frente, o estuário de águas tranquilas do rio Bidassoa, à sua direita os contornos de Hendaye e à sua esquerda a silhueta de Hondarribia, a vila basca que a conhece desde o primeiro sopro.
Os contornos cada vez mais iluminados pelo sol nascente, começavam a permitir que Itziar distinguisse os edifícios das duas vilas, cada uma em seu país, e o rio Bidassoa a servir de fronteira.
Ontem, quando se deitou e moída como estava, pensou que não tardaria a adormecer. Porém, o seu coração tinha planos diferentes.
Deve ter dormido umas três horas e acordou estremunhada. Não parou de dar voltas na cama até que se decidiu por vir ver o nascer do sol.
Não se lembrava de ter feito isto antes, mas neste dia era urgente ver nascer, sentir que a vida continua.
Na noite anterior, durante o velório de Maité, sentiu-se num espartilho que só lhe permitia meias respirações.
Sucediam-se as condolências de pessoas que não conhecia ou não se recordava, mas que se lembravam da sua proximidade com Maité. No intervalo desses sentimentos, somatizava as lágrimas e soluços, ajeitava os lenços de papel no bolso direito e passava ao próximo familiar ou amigo.
O cansaço foi-se acumulando sem compensação.
Ainda não lhe parecia real que esta grande amiga tivesse morrido.
Tinha experimentado outras expressões. Que tinha partido ou que deixou a sua existência terrena, mas a sensação definitiva de fim não lhe permitia usar outra palavra que não a própria morte.
Esses soluços atenuados compassavam-se com as lágrimas que corriam involuntárias, filhas do turbilhão de ideias que não lhe permitia fixar-se em nenhuma.
Nem há uma semana tinha estado quase uma hora ao telefone com Maité e agora, dela só restava o seu corpo sem vida e, daqui a umas horas, só mesmo recordações.
Itziar voltou a dar atenção à paisagem, o avançar do dia permitia-lhe começar a ver as casas de Hondarribia.
Tentar não pensar de todo era o máximo que conseguia fazer.
No ar, o cheiro do lodo do estuário, que tão desagradável pode ser para quem com ele não convive, dava-lhe a sensação de ambiente familiar e lembrava-lhe algumas caminhadas com Maité, na zona das Marismas de Jaizubia, na margem oposta do estuário.
Ao ver o dia amanhecer, assaltava-lhe o medo que o mesmo avanço do tempo lhe revelasse o erro dos muitos encontros adiados com Maité. Erros impossíveis de corrigir.
A grande pergunta que lhe atormentava agora era por que razão tinha adiado encontros com a amiga que até há uns anos esteve presente em todos os grandes momentos da sua vida?
Itziar reconhecia que tinha caído na roda sem fim da rotina diária dos horários totalmente preenchidos.
O trabalho, o ginásio, a família e tantas outras atividades das quais não se lembrava, entupiam-lhe constantemente a agenda.
Esse campo de forças que a mantinha consciente permitiu-lhe procrastinar a sua libertação, sempre sem sucesso. Era um passo que exigia uma energia que dizia não ter, e neste momento não conseguia saber porquê.
Será porque se dedicou à sua profissão? Mas terá valido a pena o descuido perante as suas amizades?
Será porque se dedicou à sua família? Mas não poderia facilmente ter encontrado um equilíbrio?
“São opções, temos que lutar pelas nossas opções” pensava Itziar que ao mesmo tempo dizia que algo não podia estar certo se tinha de justificar-se a si própria.
Depois de uma altura de muito convívio entre as duas amigas, cada uma tinha constituído a sua própria família e, sem darem por isso, passaram-se os dias, os meses e os anos com cada vez menos encontros.
O tempo passou, e entretanto, as duas amigas sempre trocaram mensagens que agora Itziar aproveitava a ocasião para rever.
Mas, ao procurar as mensagens antigas que lhe lembrariam a amiga, Itziar viu que só tinha as mensagens dos últimos meses porque as anteriores tinham desaparecido com um telefone que caiu ao rio numa travessia para Hendaye.
A luz do telefone onde procurava as mensagens, iluminou o espaço do santuário das aves e os pássaros da madrugada pararam o seu chilrear constante e foi então que Itziar levantou a cabeça como se voltasse a dar conta de onde estava.
Durante os dias normais, através das mensagens, Itziar tinha a sensação de estar sempre contactável. Qualquer amigo a conseguia encontrar.
Pensava que as mensagens eram apaziguadoras da saudade. Mas, se assim era, então porque sentia tantas saudades da amiga?
Talvez porque estas mensagens não substituíram o calor de um abraço ou o simples par de beijinhos que trocavam quando se encontravam.
Agora, à distância, Itziar percebia que estas formas de comunicação virtual não passavam de maneiras de atenuar a dor da saudade que antes as atraía para se encontrarem.
Afinal, as mensagens só calaram a voz interior que as ordenava ao encontro, mas nunca mataram as saudades.
Por que não pensou isso antes?
Mas, por outro lado, sabia que nada disto era novo e essa consciência entristeceu-a profundamente.
Será que um dia Itziar se irá lembrar das mensagens como se lembra dos bons tempos de farras em noites memoráveis ou de um simples encontro para café rápido? Não sabia, mas algo em si não confirmava esta hipótese.
Será que perdurará no tempo a gratificação instantânea que teve das vezes que Maité, nas redes sociais, reagiu a uma fotografia ou texto? Com quantas memórias profundas Itziar irá ficar dessas ditas gratificações? Alguma, pelo menos?
No entanto, lembrava-se da cor de vestidos que trocaram ou do cheiro dos bronzeadores que partilharam nas tardes de praia de Donostia. Estava confusa e não sabia o que pensar de tudo disto.
Mas não podia dizer que não sabia.
Os olhos de Itziar andavam de um lado para outro à procura das imagens que as mensagens nunca lhe dariam de volta.
As redes sociais estavam cheias de mensagens patéticas que nos aconselhavam a passar mais tempo com quem nos faz feliz e agora fazem todo o sentido — as mesmas redes sociais onde Itziar sempre gastava o seu tempo no scroll infinito.
Ainda assim, na noite anterior, durante o velório, a outros amigos com quem há muito não se encontrava pessoalmente disse “temos que combinar qualquer coisa”, sabendo que não passavam de promessas para encontros que seriam eternamente adiados tal como um dia aconteceu com Maité.
Fazia planos que sabia que iria frustrar.
Porquê?
“Maité, agora que já não te posso mandar mensagens, dói-me toda a saudade que antes não foi suficiente para me levar ao teu encontro.”
David Monteiro