A Feira dos Frutos nas Caldas da Rainha ocupa uma boa parte do Parque D. Carlos I e é muito mais do que o nome sugere. Entre as ruas ladeadas de barraquinhas de madeira, encontram-se peças de cerâmica, brincos artesanais, máquinas agrícolas e bancas de comida. É um ponto de encontro onde cabe quase tudo.
Foi numa dessas bancas que o encontrei. Jaleca impecavelmente branca, óculos de aros claros, um microfone preso ao rosto. As mãos moviam-se com uma precisão e uma ligeireza que só se conquistam com milhares de horas de prática. Cortava frutas e legumes como quem respira.
Perguntei-lhe o nome. Com um sorriso adorável, respondeu: Ismael.
Expliquei-lhe o meu projeto e ele acedeu alegremente. A partir daí, a câmara foi só mais um elemento do espaço. A concentração era absoluta. A qualquer outra pergunta que fiz, o sorriso foi a resposta, e o trabalho continuou sem hesitação.
Dos artigos que demonstrava, honestamente, não me recordo, também eu focado no meu objectivo. Mas das suas mãos, esguias e bem arranjadas, que transformavam uma couve ou um pepino em qualquer coisa próxima da elegância, não me esqueço.
Há pessoas que fazem do gesto quotidiano uma forma de arte. O Ismael é uma delas.