A miúda que corria

Um turista, uma miúda e a força incontrolável de quem simplesmente tem de correr.

Bastava não ter escolhido aquele pub e não havia história nenhuma.
Bristol entrou no meu radar turístico depois de ter sabido do Upfest de 2015, um festival de street art que aconteceu nessa cidade e que, entretanto, soube que é recorrente.
Além de ter visto imagens de obras de arte urbana que me pareceram extremamente interessantes, considerei uma visita à cidade também como uma excelente oportunidade para fotografar. Não necessitei de mais motivos para me decidir a ir.
Aproveitando uma visita mais demorada a Londres, e com a firme convicção de que um dia de visita seria suficiente, fui até lá de comboio, o meu meio de transporte privilegiado.
Foi um dia muito bem escolhido que só pode ter sido agraciado pela Divina Providência. Sem chuva nem sol intenso, o dia nebulado permitiu-me muitas horas de fotografia.
Cheguei a Bristol ao final da manhã e fui de imediato à North Street, onde se encontravam as obras que queria ver e fotografar.
A pintura Tiger Head, do artista chileno Otto Schade, foi a primeira obra com que me maravilhei. A partir dali foi um fartar de disparar.
A qualidade já era esperada. O que me surpreendeu foi a quantidade.
Ao fim de várias horas, dei conta de que tinha ultrapassado largamente a minha religiosa hora de almoçar e, surpreendentemente, sem que isso me tivesse causado qualquer perturbação. Completamente estranho à minha pessoa.
Porém, e talvez por me ter dado conta, depois disso já não consegui pensar em mais nada que não fosse calar o estômago que se zangava comigo.
Em momentos assim, a bendita tecnologia eleva-se à categoria de anjo da guarda. Uma pesquisa rápida disse-me que, ali perto, o pub “Spotted Cow” podia ser uma boa opção. Fui experimentar.
Já passava bastante da hora normal de os locais almoçarem quando lá entrei, mas, pelos vistos, beber pints não sofre de horário apertado.
Sentei-me e pensei: em Roma sê romano. Pedi uma pint e uma dose de fish and chips, claro.
Enquanto me empanturrava com essa bateria de fritos, um grupo animado foi ocupar uma mesa perto da minha.
Seriam uns quatro ou cinco, não tenho a certeza. Mas o que me deve ter chamado mais à atenção foi uma mulher, na casa dos trinta, bonita, bem vestida e com um capacete de bicicleta debaixo do braço.
A contar pela forma elegante e sóbria como estavam vestidos e pela maneira descontraída, mas sem demasiada proximidade, com que se tratavam, devia ser um grupo de colegas de trabalho.
Passado algum tempo, baixaram o volume da conversa e trocaram um conjunto de papéis.
A súbita alteração das suas expressões puxou o gatilho da minha imaginação que decidiu que seriam colegas de um escritório de advogados e que discutiam algum detalhe de um contrato. Um cenário digno de fotografia de rua que só consegui imprimir na minha memória.
A conversa séria foi sol de pouca dura porque um dos convivas levantou-se, agarrou no capacete esquecido em cima da mesa, pô-lo na cabeça da dona e dirigiu-se para a zona das casas de banho.
O grupo gozou com a mulher, que percebi chamar-se Emily e que então baixou os olhos para os pés e levantou um, mostrando o sapato. Foi a galhofa geral.
Na altura não consegui perceber completamente, mas mais tarde quando a mulher se voltou a levantar, desta vez para sair, vi que trazia sapatos de saltos altos, o que também me fez sorrir pensando, sem chegar a conclusão nenhuma, como tal combinaria com o capacete e a atividade implícita.
O grupo demorou-se menos no pub do que eu, mas eu estava em pulgas para continuar a fotografar enquanto a luz me permitisse, o que fez com que também pedisse a conta e me preparasse para sair.
Voltei às minhas fotografias e percebi que, durante as horas que já tinha passado a fotografar, havia visto a esmagadora maioria das obras que ali estavam.
Então quis aproveitar o momento para descer até à zona do centro da cidade, conhecer e fotografar alguma outra coisa interessante.
A minha paixão por zonas aquáticas satisfez-se com a área portuária com que me lambuzei.
Entretanto, fiquei de papo cheio de docas, guinchos e apetrechos marítimos e era hora de ir ver outro local.
Depois de começar a subir para uma zona mais alta, e vendo a luz a desmaiar, decidi voltar para a zona ribeirinha.
O pôr do sol aproximava-se devagar, as luzes dos candeeiros de rua acendiam-se lentamente, as montras iluminadas sobressaíam e notei o aumento do movimento das pessoas que saíam dos seus trabalhos e se acumulavam nas ruas. A iluminação pública tornava qualquer fotografia mediana numa obra de arte.
Nisto, enquanto descia a College Green, fui aprisionado pela visão de uma criança que, bruscamente, me libertou do meu passarinhar de turista.
Na miúda, que aos saltinhos impacientes olhava para o semáforo, vi claramente uma força incontrolável.
A mulher ao seu lado, que assumi ser a mãe, reconheci-a de imediato: era Emily, a do capacete de bicicleta e saltos altos.
O cenário parecia-me confuso porque eu tinha a certeza de que aquela criança ia começar a correr e não entendia como a mãe a iria controlar, porque correr não podia.
Ao olhar para aquele cenário, tive a sensação de que o assunto não era novo para aquela mãe. Talvez a sua descontração a tenha denunciado.
Eu só tinha uma certeza: Emily não iria conseguir acompanhar a filha a correr.
Como me poderia esquecer? A resposta estava no capacete de Emily. Mas onde estaria a bicicleta?
Nesse mesmo momento, Emily começou a falar com uma mulher ao seu lado que vestia uma camisola de lã rosa-choque com alguns brilhantes e com uma figura que não consegui identificar. Também ela acompanhava uma criança da idade da filha e com um uniforme igual.
Pela naturalidade com que falaram, diria que já se conheciam. O mais provável é que, tal como Emily, também fosse mãe da criança que a acompanhava.
— A Lilian é uma força da natureza — disse a mulher da camisola colorida sorrindo.
— Oh meu Deus… está sempre mortinha para ir a correr para casa. Felizmente, no nosso trajeto não há muitas ruas com trânsito e ela pode gastar as energias — respondeu Emily com um meio sorriso e dois terços de cara de enjoo.
A conversa terminou sem um adeus, como se tivessem a certeza de se voltarem a encontrar.
A Anchor Road, onde estavam no momento, era a exceção, e vi que Lilian sabia que tinha de esperar pela luz do homenzinho verde, que aparece com o seu apito intermitente, para então poder atravessar a rua.
Quando espreitou para a direita, vi a sua cabecinha sobressair de entre os muitos adultos que esperavam mecanicamente o momento de atravessar.
Homenzinho verde… apito intermitente… mais uma espreitadela, não vá vir algum despistado… ninguém… pimba! E lá vai ela a correr.
— Lilian! Espera! Espera! Na estrada não se corre — disse Emily em tom audível apesar do barulho do trânsito.
Nesse mesmo instante, outra mulher, com a farda da escola de Lilian, atravessava também a rua. Emily nunca lhe dera troco, mas foi com o mesmo sorriso que se lhe dirigiu.
— É hiperativa — disse a funcionária.
— Hiperativa uma ova. Gosta de correr! — respondeu-lhe Emily, sem desviar o olhar.
A mulher que, inesperadamente, recebeu essa reação de Emily parou por meio segundo e mudou ligeiramente de direção.
Distraí-me por segundos pensando no que poderia ter levado Emily àquela brusquidão e esse foi o tempo suficiente para perder Lilian de vista.
Do outro lado da rua, um pequeno barrete de lã colorido denunciou a criança.
Lá estava ela cheia de tremeliques. Mal a mãe chegou perto, desatou a correr.
A duas pessoas de distância de Emily, eu seguia espontaneamente na mesma direção que a mãe e a filha, já com o modo de fotógrafo ligado, deliciando-me com a cena.
Um pouco mais em frente, reparei num imenso parque de bicicletas. Tudo começou a fazer sentido.
Lilian correu ao longo da fila de bicicletas com a mão direita a tocar ligeiramente nas traseiras das bicicletas estacionadas. De repente, ficou a rodopiar em frente de uma delas gritando para a mãe que, apesar de claramente não ouvir nada do que a filha lhe dizia, percebia absolutamente tudo o que a filha queria dizer.
Bastou a mãe chegar perto da bicicleta e já a filha se preparava para começar a correr.
— Espera. Espera! — Emily agarrou no braço da filha que ria como só riem as crianças.
Entretanto, foi só a mãe afrouxar a mão e Lilian pareceu um avião a jato que estivera preso a ganhar rotação até que o libertaram das amarras.
Eu aproximava-me e consegui ouvir Emily que já tinha de gritar para que a filha a ouvisse.
Os apelos da mãe, que alternavam com comandos supostamente firmes, só davam para os mínimos. A criatura corria desembestada como um foguete e ameaçava desaparecer no meio da multidão.
Pela direção da miúda também ajustei o meu caminho. A esta altura já estava hipnotizado por este par.
Emily montou na bicicleta e, ao passar por mim, toda a galhofa com os colegas de trabalho fez-me sentido: ela pedalava de saltos altos.
Mãe e filha passaram em frente aos Cascade Steps.
Lilian não conseguia tirar os olhos da instalação de luzes que fazia jogos de cor num incessante galgar de degraus, o que levou a um aviso automático da mãe, consciente de situações anteriores.
— Olha para onde vais!
Lilian escapou-se a um valente trambolhão.
— Broad Quay, Broad Quay…
Ouvi Emily, mas não fazia a mais pequena ideia do que aquilo queria dizer.
No entanto, a instrução atingiu em cheio o seu pequeno destinatário. Ela apontou a agulha para uma ciclovia ali perto e zás, mãe e filha afastaram-se rapidamente.
Não sei o que eu poderia estar a pensar, mas foi tudo muito repentino.
Parecia que este par não me deixaria outra solução para saber para onde iam, senão terminar de fotografar e levantar voo, movido pela ânsia de acompanhar a história.
A realidade e o pragmatismo da força gravitacional, que me prendia ao chão com os meus 95 kg, limitaram-me a imitar esta menina — e também comecei a correr.
Maldita indecisão de uns segundos que me fez perder de vista a mãe e a filha.
Tinham desaparecido junto ao rio, sob a proteção da falta de iluminação, e por momentos pensei em desistir daquela ideia.
À minha frente, mas algo distante, uma rua iluminada prendeu-me o olhar. Era a estrada que dava acesso à Prince Street Bridge e que passava para a outra margem do rio Avon.
Entre mim e essa estrada, havia o espaço de rio em U, formado pelo contorno de uma doca, o que tornava a ponte inacessível no tempo que tinha. Foi o suficiente para que eu me desse quase por vencido.
Mas só quase.
Foi então que, na tal rua iluminada, no meio do amontoado de gente que passava de um lado para o outro, consegui ver o pequeno barrete de lã colorido que corria por entre as pernas dos transeuntes e a minha esperança voltou a brilhar.
Lilian, de braços abertos, como se fosse uma avioneta, corria, voava, dando fortes guinadas de asa e evitando obstáculos gigantes que, tal como ela e a mãe, talvez também regressassem a casa.
O som da cidade misturava-se com os estalidos aquáticos do rio, e a minha imaginação preencheu o som que faltava.
Consegui ouvir o “vvruummm” que saía dos lábios dela, projetando perdigotos à sua volta.
Atrás do pequeno avião imaginário, e à distância de apenas um ou dois segundos, como uma sombra protetora, vi a mãe ciclista e Lilian desaparecerem do meu olhar confundindo-se de vez com a multidão.
Regressei ao comboio de volta a Londres.
Da mãe ciclista e da menina do barrete, só posso continuar a imaginar o fim do dia.

David Monteiro

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